Entrevista Impacto
Miguel Ângelo Castro
A responsabilidade de actuar

Perante uma emergência, somos muitas vezes confrontados com uma decisão imediata: intervir ou não intervir. Saber ajudar implica mais do que conhecer algumas técnicas. Implica reconhecer a situação, avaliar os nossos limites e assumir responsabilidade perante o outro. É a partir desta relação entre conhecimento, decisão e responsabilidade que nasce o workshop «Ética nos primeiros socorros. A responsabilidade de actuar», do Festival Impacto.
Falámos com Miguel Ângelo Castro, coordenador deste workshop, sobre o papel dos cidadãos na cadeia de sobrevivência, a importância da preparação para situações de emergência e aquilo que precisamos de aprender para estar preparados quando alguém precisa de nós.
Miguel Ângelo Castro é Enfermeiro Gestor da Unidade de Intervenção Cardiovascular da ULSLO, Especialista em Enfermagem de Reabilitação e Director Nacional de Cursos de Suporte Básico de Vida com Desfibrilhação Automática Externa (SBV-DAE) do Conselho Português de Ressuscitação. Com uma vasta experiência em liderança clínica, qualidade e segurança dos cuidados e emergência médica, dedica-se à promoção da excelência em saúde, da literacia em suporte básico de vida e do desenvolvimento contínuo dos profissionais e das organizações de saúde.
Em Portugal, a maioria das pessoas sabe que deve ligar para o 112, mas poucas estão preparadas para intervir nos primeiros minutos de uma emergência. E esses minutos podem ser decisivos para a sobrevivência.
Na sua perspectiva, o que deveria saber fazer qualquer cidadão perante uma situação de emergência?
Qualquer cidadão deveria, antes de mais, saber reconhecer uma situação de emergência, garantir a sua própria segurança, pedir ajuda através do 112 e iniciar as medidas básicas de socorro que estejam ao seu alcance.
Não precisamos de transformar todos os cidadãos em profissionais de saúde. Precisamos, sim, de garantir que qualquer pessoa tenha conhecimentos e confiança suficientes para não ficar simplesmente a assistir. Numa paragem cardiorrespiratória, por exemplo, os primeiros minutos são decisivos. Saber reconhecer que uma pessoa não responde e não respira normalmente, ligar para o 112, iniciar compressões torácicas e utilizar um desfibrilhador automático externo quando disponível pode fazer uma diferença enorme.
A ética começa precisamente aqui, perante alguém que precisa de ajuda, temos uma responsabilidade enquanto seres humanos e enquanto sociedade.
A ética começa precisamente aqui, perante alguém que precisa de ajuda, temos uma responsabilidade enquanto seres humanos e enquanto sociedadeHá propostas para introduzir o Suporte Básico de Vida no ensino secundário e tornar os primeiros socorros parte da formação para a carta de condução. Mas aprender uma técnica uma vez não significa estar preparado para agir quando ela for necessária.
Como deveria ser pensada uma formação de primeiros socorros para criar confiança e capacidade real de intervenção?
A formação não pode limitar-se à transmissão de conhecimentos teóricos ou à aprendizagem de uma técnica uma única vez. É fundamental que seja uma formação prática, repetida e adaptada a diferentes situações, permitindo que a pessoa treine não apenas aquilo que deve fazer, mas também a capacidade de tomar decisões sob pressão. Devemos ensinar o cidadão a reconhecer a situação, avaliar os riscos, pedir ajuda, iniciar as medidas adequadas e perceber os seus próprios limites. Porque saber uma técnica é diferente de ter confiança para a executar quando alguém está à nossa frente e precisa de nós.
Por isso, considero muito importante que a formação em primeiros socorros seja integrada desde cedo na educação e que exista uma aprendizagem ao longo da vida. As propostas para introduzir o Suporte Básico de Vida no ensino secundário (já legislado) e associá-lo à formação para a carta de condução são exemplos dessa necessidade.
Em situações de emergência, a vontade de ajudar pode levar-nos a agir com base em hábitos, crenças ou informações erradas. Alguns desses gestos, transmitidos culturalmente ou aprendidos através dos media, podem mesmo agravar a situação.
Quais são os erros ou mitos que mais o preocupam e que deveríamos deixar para trás?
Um dos maiores problemas é acreditarmos que “alguma coisa é melhor do que nada”, quando, em determinadas situações, uma intervenção inadequada pode causar dano. Muitas pessoas ainda atuam com base naquilo que ouviram dizer, em crenças transmitidas pela família, em experiências antigas ou até em imagens que viram nos meios de comunicação. Por isso, é importante substituir o “eu acho que se deve fazer assim” por conhecimento baseado em formação e recomendações atualizadas.
Mais importante ainda é perceber que, numa emergência, não devemos ter vergonha de pedir ajuda. Ligar imediatamente para o 112, seguir as instruções do operador da Central de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) e iniciar as medidas adequadas já é intervir.
A ética também passa por reconhecer os nossos limites, ajudar não significa fazer tudo, significa fazer aquilo que sabemos que é seguro e adequado fazer.
Uma emergência pode acontecer em qualquer lugar e a qualquer pessoa. E, muitas vezes, antes de chegar um profissional de saúde, quem está em posição de fazer a diferença é simplesmente quem está mais perto.
Se salvar uma vida pode depender da pessoa que está mais perto, o que diz sobre nós uma sociedade que não prepara os seus cidadãos para esse momento?
Diz-nos que ainda temos um caminho importante a percorrer. Uma emergência pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer pessoa, e muitas vezes a primeira Pessoa da cadeia de sobrevivência não é um profissional de saúde, é um cidadão que estava simplesmente ali. Por isso, preparar a população para responder a uma emergência deveria ser encarado como uma verdadeira responsabilidade social.
Não podemos esperar que os profissionais de saúde estejam sempre presentes nos primeiros minutos. Devemos preparar os cidadãos para serem capazes de ganhar tempo, manter a vida e contribuir para que a vítima tenha melhores condições quando chegar ajuda diferenciada. Uma sociedade preparada é uma sociedade mais solidária, mais responsável e, também, mais ética.
Uma emergência pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer pessoa, e muitas vezes a primeira Pessoa da cadeia de sobrevivência não é um profissional de saúde, é um cidadão que estava simplesmente aliHá países europeus onde a formação em primeiros socorros está muito mais disseminada, como a Noruega, a Alemanha, a Áustria ou a Dinamarca.
O que fazem esses países de diferente para terem uma população mais preparada para intervir?
Existem países europeus, como a Noruega, Alemanha, Áustria ou Dinamarca, onde a formação em primeiros socorros está muito mais disseminada na população. Mais do que uma iniciativa isolada, existe uma cultura de preparação para a emergência. É essa cultura que precisamos de reforçar em Portugal, nomeadamente começar nas escolas, manter a formação dos cidadãos na fase adulta, integrando o tema em diferentes contextos profissionais e promover oportunidades regulares de treino e atualização.
No fundo, não se trata apenas de ensinar uma técnica. Trata-se de criar uma sociedade em que ajudar seja uma competência, uma responsabilidade e um valor partilhado. E é precisamente por isso que considero tão importante o tema escolhido pelo Festival Impacto este ano.
Em resumo, falar de ÉTICA é reconhecer que todos temos uma responsabilidade humana perante quem nos rodeia. Nos primeiros socorros, essa responsabilidade ganha um significado ainda mais profundo, porque pode significar a diferença entre assistir a uma emergência e ter a capacidade, a coragem e a solidariedade de iniciar uma ação que poderá salvar uma vida
