Manuel Maria Rodrigues

Manuel Maria Rodrigues Manuel Maria Rodrigues “A sociedade portuguesa não conseguiu ainda, apesar de uma vivência de 50 anos em democracia, libertar-se de estigmas e fantasmas de um passado extremamente pesado que o anterior regime de ditadura cravou naqueles que o vivenciaram” Na edição inaugural do Festival Impacto, pretendemos abordar de forma transversal o tema Preconceito – um fenómeno moldado por noções preconcebidas e não por análises inspiradas em factos empíricos. Hoje com esta entrevista exploramos a intersecção do preconceito com o crime, a justiça e a segurança, um tópico de profundo significado no mundo actual. Para nos guiar nesta discussão, temos o privilégio de conversar com Manuel Maria Rodrigues, uma pessoa reconhecida pela sua experiência prática na área da investigação criminal. Licenciado em Relações Internacionais pela UAL – Universidade Autónoma de Lisboa e Mestre em Direito e Segurança pela Universidade Nova de Lisboa, Manuel Maria Rodrigues dedicou 33 anos de serviço efetivo à carreira de Investigação Criminal da Polícia Judiciária. A sua vasta experiência é ainda complementada em metodologias de investigação criminal, gestão estratégica de crises e tácticas de contra-terrorismo, através do seu vasto portfólio e formação ministrados por instituições de renome, tal como, a Royal Hong Kong Police Force e a New Scotland Yard. Para além da sua extensa carreira no âmbito da aplicação da lei, as contribuições de Manuel Maria Rodrigues como comentador e colunista no domínio da justiça e da segurança proporcionam um contexto inestimável para examinar o papel dos meios de comunicação social na formação do discurso público sobre o crime e o preconceito. Desde a análise do discurso de ódio ao confronto com a culpabilização das vítimas, as suas perspectivas oferecem-nos reflexões críticas sobre os desafios e as oportunidades para promover uma maior equidade, empatia e responsabilidade na nossa sociedade. Com a sua formação académica em Relações Internacionais e a sua extensa carreira de investigação criminal na Polícia Judiciária, como relaciona crime e preconceito? E como é que o preconceito se cruza com outros factores, como o estatuto socioeconómico ou a ideologia política, para influenciar o envolvimento em crimes violentos ou actividades terroristas? A sociedade portuguesa não conseguiu ainda, apesar de uma vivência de 50 anos em democracia, libertar-se de estigmas e fantasmas de um passado extremamente pesado que o anterior regime de ditadura cravou naqueles que o vivenciaram. Parecendo a referência anterior fora de contexto, ela ganha consistência se recordarmos uma sociedade em que os níveis de alfabetização eram diminutos, em que a mulher não tinha direitos, nem sequer de voto, em que o homem era o denominado “chefe de família” e como tal quem impunha as regras, em que eram raras as mulheres que trabalhavam fora de casa e apenas desempenhando determinadas funções ligadas sobretudo ao ensino de crianças, à enfermagem ou cuidando de idosos. Como a cultura era sobretudo direcionada para o entretenimento e diversão do povo, controlada através de uma censura proibitiva e punitiva dos infratores, toda a atividade artística, o teatro, a literatura, a música, nada podia conter de crítico, de desafiante, de evolutivo, de contestatário, sobretudo em relação ao governo, à família ou à religião. Neste contexto não é de estranhar que em Portugal o preconceito exista, sobretudo nas vertentes social, racial, de gênero e religioso. Não é possível desvalorizar essa herança do passado que se traduz numa sociedade dividida entre uma minoria de ricos e poderosos e uma maioria populacional pobre, iletrada e profundamente dependente da oportunidade de emprego, por sua vez escasso e mal pago. Nem tão pouco podemos esquecer que a maioria da nossa população masculina, hoje com mais de 65 anos idade, foi forçada a combater numa guerra colonial “Combater em defesa da Pátria”, que não entendiam, talvez por não verem a pátria a ser atacada por nenhum dos povos africanos que diziam ser os nossos inimigos. Muito se matou e muito se morreu em terras de África! No fim, uma descolonização apressada, atabalhoada e catastrófica, veio acentuar ainda mais o antagonismo e ódio racial. O despojar de bens, os massacres, as perseguições, a fuga apressada, o deixar tudo para trás deixou marcas profundas e deu origem a uma nova classe de portugueses denominados de retornados. Todos estes fatores contribuíram para o surgimento de preconceitos que se transmitiram à geração seguinte e perduram até aos dias de hoje. Quando na década de 80 do século passado, Portugal começou a incentivar e a receber mão de obra barata oriunda das antigas colónias, deu início a um processo de proliferação de bairros sociais periféricos, amontoando esses trabalhadores em condições mínimas de habitação e integração social. O preconceito racial e social esteve sempre presente e foi-se acentuando com o passar do tempo e o surgimento de uma geração de descendentes da primeira leva, nascidos já em Portugal e cuja inadaptação social, escolar, cultural, foi germinando e tornando cada vez mais evidente. Nem podia ser de outra maneira, porque as condições que lhes foram dadas caminharam sempre de mãos dadas com a miséria, com os fracos recursos económicos, com a ausência de valores, nomeadamente de empatia com o próximo e de valoração da vida. Uma franja dessa juventude inadaptada, encontrou no bairro, na rua, no gang, o suporte e reconhecimento que a falta de estrutura familiar não consegue dar. Torna-se óbvio que a senda do crime lhes surge como a oportunidade de obter rapidamente aquilo que, a estudar e depois a trabalhar, demorará anos a conseguir se todo o processo decorrer sem percalços. De um modo resumido estes são os fatores que impelem a juventude rebelde ou inadaptada, à opção pelo crime ou por aderência a processos de radicalização quando o sentimento de revolta é alimentado pela aderência a ideologias políticas cujo conteúdo assenta na violência extrema, no fanatismo religioso, em projetos extremistas de controlo de outros povos e culturas. O preconceito neste cenário centra-se numa abusiva leitura abrangente dos grupos sociais em causa, julgando-os como um todo, com atitudes comportamentais generalizadas. Exemplo: É Árabe, logo… terrorista, É Muçulmano, logo… terrorista, É preto, vive
Nuno Nabais

Nuno Nabais Nuno Nabais “A subalternização da mulher na vida activa, tanto nas economias agrárias como no regime industrial, condenou-a a uma quase inexistência nos domínios da literatura, da ciência e da filosofia.” Nesta Entrevista Impacto abordaremos a complexa diversidade do pensamento filosófico, com um desafio: confrontar a disparidade de género que prevalece neste campo e amplificar as vozes de mulheres filósofas. Nesta procura de inclusão e diversidade, conversamos com Nuno Nabais, um nome de referência no mundo da filosofia em Portugal. Nascido em Lisboa em 1957, dedicou a sua vida à investigação, publicação e ensino da Filosofia. Criou e dirigiu a primeira livraria de filosofia de Portugal, no Bairro Alto e em 2007 transferiu a livraria para o edifício da antiga Fábrica do Braço de Prata, em Marvila. Publicado pela Editora Relógio d’Água e desde 1984 que ensina um pouco de tudo no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa. Foi professor de Teoria do Teatro na Escola Superior de Teatro e Cinema e na Universidade de Évora, ensinou Bio-Ética na Faculdade de Medicina e Epistemologia no Programa Doutoral em Ciência, Arte e Sociedade na Faculdade de Ciências. Bem-vindos a esta esclarecedora conversa onde nos confrontamos com questões de representação, reconhecimento e resiliência, examinando as barreiras enfrentadas pelas mulheres na área da filosofia e o legado duradouro daquelas que desafiaram as convenções para deixar a sua marca. A filosofia, apresenta uma representatividade predominantemente masculina (e branca). Na sua opinião que factores sistémicos contribuem para este desequilíbrio? Na cultura ocidental, não apenas na filosofia, mas em todo o trabalho intelectual, sempre existiu uma enorme assimetria entre géneros. A subalternização da mulher na vida activa, tanto nas economias agrárias como no regime industrial, condenou-a a uma quase inexistência nos domínios da literatura, da ciência e da filosofia. Apenas com a passagem a uma economia que alguns sociólogos designam como produção imaterial ou capitalismo cognitivo, a comunidade feminina tem vindo a desempenhar um papel cada vez mais relevante. São, portanto, factores económicos (de organização da produção) e factores políticos (de modelos de sujeição e de dominação) que explicam a predominância masculina durante séculos. “Hannah Arendt é o caso muito particular neste panorama das mulheres no horizonte do pensamento filosófico. Ela insistiu na ideia de que o seu pensamento em nada devia ao facto de ser mulher. Sublinhava, pelo contrário, no processo de pensar, o seu carácter neutro quanto ao género. Para Arendt, quando pensamos, ocupamos um não-lugar” Para si, que filósofas tiveram um impacto mais significativo na reformulação do discurso filosófico e como é que os seus contributos influenciaram o pensamento contemporâneo? Apenas no séc. XX surgiram mulheres que marcaram a nossa experiência do que seja isso A Filosofia. Destaco Hannah Arendt, Simone de Beauvoir, Luce Irigaray e Judith Butler. Hannah Arendt é o caso muito particular neste panorama das mulheres no horizonte do pensamento filosófico. Ela insistiu na ideia de que o seu pensamento em nada devia ao facto de ser mulher. Sublinhava, pelo contrário, no processo de pensar, o seu carácter neutro quanto ao género. Para Arendt, quando pensamos, ocupamos um não-lugar, criamos uma distância infinita entre o que pensamos e o nosso enraizamento histórico (a pertença a uma nação, a uma época). É pelo pensamento que, mesmo em “tempos sombrios” como aqueles que ela viveu, nos colocamos na esfera do universal. Não que o pensamento de Hannah Arendt tivesse por objecto privilegiado aquilo que há de universal nos nossos tempos. Os seus estudos sobre as origens do totalitarismo de Hitler e Stalin, ou sobre as revoluções americanas, francesas e russas, tornaram-se monumentos na compreensão de acontecimentos bem singulares, profundamente enraizados em lugares e em momentos da história ocidental. A sua atenção ao singular estava na raiz de uma distinção que ela fazia entre a Filosofia e a Política. A Filosofia está sempre no plano do universal e no necessário, enquanto a política mergulha no particular e no contingente. Por isso Hannah Arendt não se considerava uma filósofa, mas apenas uma pensadora da política. Em grande medida, esta sua “humildade” teve um enorme impacto na filosofia contemporânea. Não mais foi possível pensar aquilo que Arendt designa como a “vida activa” (labor, trabalho, e acção política) fora das figuras da contingência, a começar por essa contingência fundamental que é o facto de, cada um de nós, ter nascido em um certo momento e em uma determinada família que nos acolhe. Por isso, o dado primeiro da experiência política é, pela condição da natalidade, o poder de começar, de inaugurar uma série de acontecimentos que envolvem uma comunidade. Hannah Arendt, como pensadora política, inaugura um estilo de trabalho teórico onde se mistura a atenção à actualidade – sobretudo a sua longa reportagem sobre o julgamento de Eichmann em Jerusalém – a crítica literária (leituras de Kafka, Brecht, Goethe), a metafísica medieval na tese sobre o conceito de amor em Santo Agostinho, a história das descontinuidades nas formas de controlo como teoria das revoluções, análise das estruturas da violência, o diálogo com os pensadores políticos contemporâneos (Walter Benjamin, Leo Strauss, Hans Jonas). Hannah Arendt introduziu novos temas no panorama do pensamento contemporâneo, como o da “natalidade” – por oposição à “mortalidade” como marca essencial da condição humana proposta por Heidegger – a importância dos actos de “promessa” e “perdão” na acção política, as várias figuras do “mal” na esfera ética. Entre os herdeiros de Hannah Arendt refiro Levinas, Giorgio Agamben e Julia Kristeva. “Simone de Beauvoir marcou a ideia de filosofia pelos seus compromissos com causas da actualidade. A sua presença regular em conferências de imprensa, em manifestações de rua, em manifestos a favor das lutas das mulheres (pelo direito ao aborto, por salários iguais aos homens, por melhores condições de apoio à maternidade) tornou arcaica a ideia de filosofia como puro exercício do pensamento. A obra e a acção de Simone de Beauvoir abriram definitivamente as portas ao movimento feminista do séc. XX “ Simone de Beauvoir pratica também um estilo híbrido na pluralidade de registos dos seus textos. O seu livro mais conhecido, O Segundo Sexo, apesar de ser considerado
Ana Festas Henriques

Ana Festas Henriques Ana Festas Henriques “O trabalho jurídico pro bono é um veículo de resposta social para o qual os advogados são especialmente chamados, mas pode e deve ser também um veículo de transformação social.” Antecipando a 3ª conversa warm Up Festival Impacto com curadoria pela Vieira de Almeida & Associados (VdA) sobre o tema “A linha ténue entre a liberdade de expressão e o discurso de ódio” tivemos o privilégio de conversar com Ana Festas Henriques, Associada Coordenadora da área de Economia Social & Direitos Humanos e Pro Bono Manager da VdA. Ana Festas Henriques é advogada, tendo efetuado um curso de direitos humanos pelo Leitner Center for International Law and Justice da Fordham University e sido formadora na área de direitos e princípios digitais no Instituto Nacional da Administração, I.P., bem como monitora da disciplina “Direito e Voluntariado” na Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa. A sua experiência como formadora e como conselheira em gabinetes governamentais, onde mergulhou nos domínios dos direitos humanos, em particular dos direitos digitais, alimentou ainda mais a sua paixão por efetuar mudanças positivas. Nesta entrevista, ficamos a conhecer a génese do programa pro bono da VdA, o processo de seleção de casos e o impacto transformador, no panorama jurídico, do trabalho pro bono como um exemplo de serviço e representativo do compromisso de uma empresa com o bem-estar da comunidade e o progresso da sociedade. Pode partilhar a história por detrás da criação do programa pro bono da VdA? O que motivou o escritório a institucionalizar um compromisso tão forte com o serviço comunitário e como é que esta iniciativa evoluiu ao longo do tempo? O nosso Programa Pro Bono foi institucionalizado em 2008, enquanto dimensão essencial da cidadania empresarial da Firma. O programa nasceu assim como resposta institucional ao imperativo ético e social que acreditamos recair sobre os advogados, enquanto agentes incontornáveis no acesso à justiça, de prestar serviços jurídicos de qualidade a quem não tem condições para aceder aos mesmos por dificuldades económicas ou de outra natureza. Desde a origem, o programa focou-se em apoiar organizações com uma missão social e, naturalmente, evoluiu muito ao longo do tempo, abrangendo agora muitas instituições de inovação social, uma vez que acreditamos que só através da inovação será possível dar novas respostas a problemas sociais persistentes. Em média, todos os anos a VdA dedica mais de dez mil horas de trabalho ao seu Programa Pro Bono e orgulhamo-nos de estar envolvidos com os projetos sociais mais impactantes em Portugal e nas jurisdições de língua portuguesa onde operamos. “O Programa Pro Bono é transversal a todas as áreas de prática da VdA, envolvendo os advogados que, em cada caso, são os mais indicados para dar a resposta jurídica à questão em causa, sendo a sua gestão feita por mim, enquanto Pro Bono Manager da Firma.” Como é que a VdA identifica e dá prioridade a casos pro bono? Existem critérios ou processos específicos para selecionar estes casos? A Política Pro Bono da Firma estabelece os critérios orientadores do Programa, o qual se norteia por eixos estratégicos que conformam os critérios de aceitação de um pedido de apoio jurídico. Tudo começa com a submissão de um formulário de candidatura ao Programa apresentado por quem pretende o nosso apoio jurídico, no qual recolhemos informação essencial sobre a entidade ou o projeto para uma tomada de decisão pelo Comité Pro Bono, que baseia essa decisão seguindo critérios previamente definidos, entre os quais o apoio jurídico a prestar estar direcionado para uma entidade ou projeto do terceiro setor, o cariz de inovação social do projeto, o impacto que o apoio jurídico a prestar pode ter no projeto, o enquadramento do apoio nas áreas de prática da Firma, bem como o facto de não existirem fatores de exclusão que impeçam uma decisão de aceitação, designadamente ter sido identificado um conflito de interesses ou o apoio jurídico pretendido versar sobre matérias de direito nas quais a VdA não trabalha. Quanto às fontes de origem, tipicamente são as entidades que pretendem o nosso apoio jurídico que fazem o primeiro contato, mas temos também situações em que é a Firma a identificar um projeto ou entidade de terceiro setor que demonstra total alinhamento com o Programa e somos nós a fazer o contato e a disponibilizar apoio jurídico. A partir do momento em que um determinado pedido é aceite para ser incluído no Programa Pro Bono, todos os processos internos da VdA aplicáveis a qualquer cliente são seguidos, designadamente a nível de compliance interno e despiste de conflito de interesses, envio de uma proposta de trabalho com a descrição do âmbito do apoio a prestar e previsão das horas de trabalho necessárias, abertura de cliente e dos dossiers respetivos. Um cliente incluído no Programa Pro Bono é um cliente da VdA como qualquer outro, a única diferença é que não receberá uma fatura de honorários pelos serviços jurídicos prestados. O Programa Pro Bono é transversal a todas as áreas de prática da VdA, envolvendo os advogados que, em cada caso, são os mais indicados para dar a resposta jurídica à questão em causa, sendo a sua gestão feita por mim, enquanto Pro Bono Manager da Firma. “Em média, todos os anos a VdA dedica mais de dez mil horas de trabalho ao seu Programa Pro Bono e orgulhamo-nos de estar envolvidos com os projetos sociais mais impactantes em Portugal e nas jurisdições de língua portuguesa onde operamos.” Pode destacar um caso ou um projeto pro bono que esteja a decorrer, realçando o seu significado para a sociedade e explicando de que forma esse projecto tem impacto social e contribui para desconstruir um preconceito ou discriminação? Poderíamos destacar não um, mas vários projetos com impacto social relevante em diferentes setores da sociedade. Um exemplo recente é o apoio jurídico que estamos a prestar à Rede Capital Social – Associação de Filantropia Estratégica, que pretende gerar mudanças sistémicas positivas no ecossistema da inovação social e que tem como missão a maximização do
Susana Chasse

Susana Chasse Susana Chasse “Vivemos em tempos de uma permissividade total na relação com o corpo e a sua exposição. É admissível um adulto ou menor sexualizar o seu corpo numa rede social, mas é ofensivo ver a estátua de David, nu, exposta. É pura demagogia.” Seja bem-vindo a um diálogo esclarecedor com Susana Chasse, artista plástica e professora de desenho cuja trajectória de vida é tão rica e diversa quanto os traços que aplica à sua arte. Mestre em Design Visual pelo IADE, a exploração do desenho por Susana Chasse transcende o convencional, como se pode verificar no seu tema de tese “O Desenho como Meditação: O Olhar que Contempla”. A sua biografia construiu-se com diversos encontros, desde a direção de arte em publicidade, meditação, dança até ao domínio matizado do Shiatsu. Cada capítulo, contribuiu para a sua compreensão multifacetada de exprimir, ver e criar. A pintura e o desenho são companheiros constantes no seu percurso, materializados através de exposições individuais e colectivas, em Portugal e internacionalmente. A sua carreira é pontuada por prémios que reconhecem a arte e a dedicação na captura dos momentos intangíveis que definem o seu trabalho. A sua afirmação de que “quanto maior for o despojamento de conceitos e preconceitos, maior será a capacidade de visão” serve como nosso fio condutor neste diálogo. Junte-se a nós enquanto desvendamos as nuances da expressão artística, da empatia e da luta contra o preconceito, mergulhando num diálogo que procura transcender a tela e ressoar no âmago da nossa humanidade. Pode partilhar connosco o seu percurso pessoal e profissional e desvendar quais as experiências que a moldaram como indivíduo, artista e professora? Existiu um momento, uma experiência que alterou a minha consciência e a minha vida. Tinha 18 anos e terminava as aulas na SNBA, depois de horas a desenhar modelo, fui para o metro de Lisboa, por volta da meia –noite… de repente, tudo se transformou em linhas. As pessoas, árvores, edifícios, objectos. Tudo eram planos, luz-sombra, as texturas eram linhas, eu era linhas… foi nesse momento que se tornou claro na minha mente a abstracção que em tudo existe e é, quando retiramos o nome, conceito e as transformamos em linhas. A maior experiencia de todas, que é transversal enquanto individuo, artista e professora é a observação, ver o que é visível mas sobretudo o invisível, na relação comigo, na relação com o outro, na relação com o meio e com tudo aquilo que aparentemente nos rodeia. É nesse olhar que encontro sentido para fazer o que faço, ser o que sou. A contemplação é o fio condutor e aglutinador do meu percurso pessoal e profissional. Desde cedo tenho essa consciência de mim, desse estar, da observação, da empatia, da compreensão do que aparentemente é diferente, mas que tudo tem em comum comigo e com todos. Na sua experiência como professora de desenho, poderia explicar-nos o significado da introdução de modelos nus na educação artística? O modelo Nu para mim, foi uma necessidade inerente à profundidade e entendimento da vida. Lembro-me com 18 anos, na primeira aula de desenho na S.N.B.A. (curso em que me inscrevi porque queria desenhar, mas que li na diagonal o seu conteúdo), estar sentada com o cavalete no colo e eis senão quando salta para o estrado um homem nu para desenhar. Não sabia para o que ia, mas sei que em pouco tempo a minha cabeça mudou de “um homem nu para desenhar” para não existir diferença entre eu, o modelo, as linhas, as manchas, o lápis, tudo era o mesmo, sem limites ou conceitos que os definissem. Mais tarde, no ano a seguir, já como assistente de desenho, lembro-me num intervalo estar a conversar com esse mesmo modelo, só com as botas calçadas enquanto enrolava um cigarro, quando alguém passou e fez um reparo sobre o facto do modelo estar nu, só aí me apercebi, e naquele momento senti como era confortável estar a conversar assim, sem conceitos nem preconceitos. Estar no prazer do tema de conversa. Este é um exemplo entre muitos, sobre a observação, dentro e fora de mim. Mais tarde em 2007 quando iniciei os meus próprios cursos noutro local, percebi que o modelo nu era o elo de ligação entre o desenho, eu e os alunos, que funcionava como uma meditação aquela trindade. Que nos exige muitos mais que a observação, exige também contemplação, coloca-nos em ligação com a vulnerabilidade de um ser, de um corpo, corpo igual ao nosso, pouco visto, ensina-nos a visão para além desse conceito de ser feminina ou masculina, abre-nos a porta profunda do entendimento da linha, sem género, sem etnia, sem peso, sem idade, sem nome. Exige uma percepção pura da visão com uma consciência empática. Tudo isso é possível para mim, através desta experiência do outro, mais do que um objecto. Acredito que o mistério do ser e da sua representação e imortalidade, é aquilo que nos impele para desenhar modelo nu na prática artística. É sempre muito discutível o porquê na génese, talvez por isso prefira cingir-me àquelas que são as minhas escolhas conscientes. Se repararmos o que levou os nossos antepassados a desenhar o modelo nu, com as suas teorias e proporções, é idêntico na base mas bastante diferente daquilo que nos leva agora a desenhar um modelo nu. Talvez a avidez de querer representar o ser humano se mantenha da mesma forma, às vezes por capricho ou vaidade, outras vezes pelo entendimento real e profundo do corpo humano. “O desconhecido para uma mente aberta e empática é uma oportunidade de crescimento e enriquecimento. Para uma mente fechada, com conceitos pré-definidos e não empática é motivo de receio, desconforto ou resistência.” Mencionou a abstração do olhar no desenho. Pode explicar-nos de que forma este conceito purifica o ato de observação, libertando-o de conceitos pré-concebidos ou preconceitos ao desenhar o corpo humano nu? A abstracção aparece pela observação. À pouco referi que estar nu ou vestido, ser homem ou mulher, era igual para a linha. A
Nélia Capelinha

Nélia Martins Capelinha Nélia Martins Capelinha “Em primeiro lugar devemos dotar a sociedade de conhecimento. O que é o autismo? Quando a sociedade perceber o que é autismo já não vai julgar” Nesta entrevista esclarecedora, temos o privilégio de conversar com Nélia Martins Capelinha, Directora Técnica e Psicóloga Principal da APPDA-Algarve (Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo). Com uma vasta experiência em psicologia clínica e da saúde, necessidades educativas especiais e musicoterapia, traz-nos uma perspetiva única para a compreensão sobre Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). O seu percurso académico, enriquecido com um Mestrado em Musicoterapia e um conjunto diversificado de certificações, reflecte o seu empenho em aliar a psicologia à expressão criativa. Nesta conversa, Nélia Martins Capelinha esclarece vários aspectos sobre o Transtorno do Espectro do Autismo, abordando preconceitos, conceitos erróneos prevalecentes, desafios enfrentados por indivíduos e famílias, a importância da intervenção precoce e estratégias para promover a inclusão e a compreensão. Através das suas ideias e experiências, conhecemos orientações valiosas sobre como promover interacções significativas, construir redes de apoio e promover a sensibilização para o autismo. Como directora técnica e psicóloga da APPDA-Algarve, pode dar-nos uma ideia abrangente do que é o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), incluindo as suas várias apresentações e características? O Autismo é uma síndrome neuro-comportamental com origem em perturbações do sistema nervoso central que afeta o desenvolvimento típico da criança. Os sintomas ocorrem nos primeiros três anos de vida e incluem três grandes domínios de perturbação: social, comportamental e comunicacional. “Muitas pessoas acham que o Autismo é uma doença mental, mas não é, em si, uma doença mental. O que acontece é que pode existir uma maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de problemas ao nível da saúde mental” A sociedade tem frequentemente ideias erradas e preconceitos sobre o autismo, o que leva à estigmatização e à discriminação. Pode esclarecer-nos algumas das ideias erradas e preconceitos mais prevalecentes sobre o autismo e explicar de que forma estas percepções afectam as pessoas com TEA e as suas famílias? É verdade, apesar da informação que existe atualmente, ainda existem muitas ideias erradas, por exemplo, as pessoas acharem que o Autismo é uma desculpa para um comportamento desadequado ou antissocial, quando há um comportamento incomum pode ser resultado do sofrimento perante uma situação que não tem em conta as necessidades da pessoa (e.g., mudança de rotinas, instruções que não são claras, gritos, …). Ou que o Autismo é apenas uma deficiência. Não é apenas ou sempre uma deficiência, é uma diferença que tem aspetos positivos que são frequentemente negligenciados. Muitas pessoas acham que o Autismo é uma doença mental, mas não é, em si, uma doença mental. O que acontece é que pode existir uma maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de problemas ao nível da saúde mental devido ao sofrimento causado pelos conflitos sociais, incompreensão, discriminação e outros fatores. Outro mito é achar-se que o Autismo está presente só em homens e rapazes. O diagnóstico está muito direcionado para aspetos que são mais visíveis em homens do que em mulheres. Também é comum ouvir-se que as pessoas com autismo são estranhas e não têm competências sociais, esta é uma visão crítica que rotula e estigmatiza as pessoas, baseando-se no que é considerado “normal” ao nível das competências sociais. Contribui para a diminuição da responsabilidade dos empregadores/entidades de se adaptarem e se envolverem com estas pessoas. Outro mito é pensarem que as pessoas com autismo são incapazes de ter empatia pelos outros. O que pode (e deve) ser dito é que sentem empatia de diferentes formas. Também se pensa que quando se conhece uma pessoa com autismo fica-se a conhecer o funcionamento de todas as pessoas com autismo. Não é verdade, o Autismo é um espetro; as pessoas neste Espetro são individuais e diferentes umas das outras. Depois de ter conhecido uma pessoa no Espetro do Autismo, … apenas conheceu uma pessoa! As pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo deparam-se frequentemente com desafios no acesso a actividades de lazer, culturais e desportivas. As limitações parecem resultar da falta de adaptações e de formação para as TEA nas instituições, organizações e profissionais destas áreas por não dispor de estratégias ou recursos suficientes. Como podemos abordar esta questão para garantir que as pessoas com TEA tenham uma gama mais inclusiva e diversificada de escolhas, permitindo-lhes participar plenamente na sociedade? Sim, sem dúvida, e quando falamos de recursos, podemos logo começar com a ideia errada que têm do que é o autismo. Os recursos que uma pessoa com autismo precisa são diferentes dos recursos que uma pessoa em cadeira de rodas precisa, por exemplo. Quando solicitamos adaptações para uma pessoa com autismo, por vezes dizem-nos que não têm uma rampa, ou não sabem, quando a pessoa com autismo precisa “apenas” que se baixe o volume da música ou a intensidade da luz, ou de um roteiro que o guie num museu, etc. Formação nesta área é sempre bem-vinda. Existe uma carência de recursos a todos os níveis, materiais, humanos, etc, e de uma geral em todos os setores, sejam escolas, empresas, instituições publicas e privadas, etc. Muitos projetos ao longo destes últimos anos têm sido feitos. Os projetos que existem, através de instituições como a federação portuguesa de autismo, Instituto nacional de reabilitação (INR), iniciativas de projetos de associações, etc, vão ajudando a tornar a sociedade mais plena, assim como os apoios sociais e os decretos que apoiam os alunos nas escolas, que não são perfeitos, mas existem, há um caminho a ser traçado. Em primeiro lugar devemos dotar a sociedade de conhecimento. O que é o autismo? Quando a sociedade perceber o que é autismo já não vai julgar, por exemplo, uns pais no supermercado, porque o filho está a fazer uma birra, são julgados porque não o sabem educar. Se a sociedade saber o que é o autismo, que a criança é autista, percebem que a criança poderá estar a ter uma crise sensorial e está em sofrimento, por exemplo. Em vez de julgarem, entendem. Projetos direcionados para escolas em que as diretrizes
Carolina Iglésias Martins

Carolina Iglésias Martins Carolina Iglésias Martins “Actualmente, investimos triliões de dólares em transformação digital, mas este investimento apenas serve um grupo restrito: cerca de metade da população mundial, ou seja, 3.8 biliões de pessoas ainda vivem offline e não beneficiam das mesmas oportunidades. E este número é o meu grande motivador actual para continuar a contribuir para um mundo mais inclusivo e global.” Sejam bem-vindos à nossa entrevista com Carolina Iglésias Martins, cuja carreira percorre os domínios da cultura, da tecnologia e da ética dedicando-se atualmente à Consultoria em Inclusão Digital e Ética em IA no International Institute of Water Management. Licenciada em Gestão Cultural e Comunicação, o seu percurso começou no dinâmico mundo da produção musical e da gestão de artistas, mais tarde, com um mestrado em Ciências Empresariais focado em sistemas de informação pelo ISEG e formação complementar em Liderança pela NOVA – School of Business and Economics, e Epistemologia pela Universidade de Oxford, Carolina Martins cultivou uma perspetiva única na intersecção da tecnologia, inovação e ética. A sua ampla visão e experiência foram também reconhecidas através da sua participação como membro observador no Comité Nacional 223 – Inteligência Artificial para a ISO/IEC JTC 1/SC 42. Ao longo da sua vida e carreira, Carolina Martins tem incorporado uma filosofia de adaptabilidade e vive segundo uma regra simples, mas poderosa: ser gentil. A sua crença no potencial único de cada indivíduo dentro das equipas tem guiado a sua missão de criar espaços onde a criatividade prospera e a diversidade é celebrada. Na entrevista de hoje, Carolina Martins partilhará as suas reflexões sobre os desafios e oportunidades apresentados pela era digital, a sua incursão na tecnologia e o seu compromisso com as práticas éticas. Antecipando o seu papel como oradora no painel “Somos mesmo um país de costumes brandos?” na conversa warm up festival Impacto, esperamos compreender melhor as suas perspectivas sobre preconceito, diálogo e redes sociais na era dos “Likes”. Reflectindo sobre o seu percurso pessoal e profissional, poderia partilhar, connosco, momentos ou experiências que tenha moldado significativamente o seu percurso e catalisar o seu empenho em moldar um futuro digital que seja inclusivo, ético e inspirador? Creio que este desejo de servir um propósito de um futuro digital mais inclusivo surgiu na minha infância. Vivi em Macau durante os primeiros 12 anos da minha vida. Durante este tempo, fruto da natural convivência e mistura cultural entre o Oriente e o Ocidente, tive a oportunidade de aprender a conviver de forma pacífica com a diferença. Não só conviver, como apreciar e respeitar o outro. Com isto, uma das boas consequências, foi também a oportunidade incrível de poder viajar com os meus pais por diversos países diferentes, em vários continentes, nomeadamente o Sudeste Asiático. Estas experiências de infância, trouxeram-me a possibilidade de ver a diversidade humana e também muitas disparidades socioeconómicas. Ver outras crianças, tal como eu, mas em circunstâncias tão diferentes, fez-me concluir que todos partilhamos uma essência: todos nós sentimos alegria e dor, enquanto temos que reconhecer que as oportunidades não são iguais. Esta compreensão inicial da diversidade e desigualdade moldou a maneira como vejo o mundo.À medida que cresci, comecei a interessar-me sobre tecnologia e por questões filosóficas sobre moralidade, aceitação social e a existência de valores universais. Comecei a perceber que muitos de nós negligenciam aspectos cruciais da nossa formação, como a cidadania digital, deixando de lado questões essenciais sobre como nos comportamos e interagimos no crescente mundo digital. Agora, acho que o ponto que fez toda a diferença para que ganhasse a consciência da importância destes assuntos para mim, foi o nascimento do meu filho. Quando ele começou a crescer, comecei a ser confrontada com questões tão diferentes das da minha infância/adolescência nos anos 90 e 2000, especialmente com os desafios das redes sociais e das consequências que trazem. Tornou-se claro para mim a importância de promover a literacia digital, democratizando o acesso à tecnologia digital de forma que todos possam participar, compreender e influenciar o futuro digital de maneira positiva e consciente. E agora, no meu trabalho com comunidades marginalizadas do hemisfério sul, consigo diariamente ver como a intenção do avanço tecnológico desfaza muitas vezes com a possibilidade de um impacto profundo fruto dos riscos de exclusão e falta de estratégias de mitigação dessa exclusão digital. Actualmente, investimos triliões de dólares em transformação digital, mas este investimento apenas serve um grupo restrito: cerca de metade da população mundial, ou seja, 3.8 biliões de pessoas ainda vivem offline e não beneficiam das mesmas oportunidades. E este número é o meu grande motivador actual para continuar a contribuir para um mundo mais inclusivo e global. De acordo com a sua investigação e experiência, quais são, na sua opinião, os desafios mais prementes e as oportunidades mais promissoras trazidas pela era digital? De forma geral, na minha visão, existem diversos desafios. Uns mais facilmente superáveis que outros, mas creio que solúveis com diálogo, compromisso e algumas cedências.Um dos maiores desafios que vejo é o da disparidade e exclusão digital, assim como na literacia digital. É verdade que a era digital promete inovação e conveniência, mas também aumenta as desigualdades existentes. Não apenas no acesso à tecnologia digital, mas também nos próprios processos de criação e desenvolvimento. Muitos indivíduos e comunidades continuam marginalizados devido à falta de acesso à tecnologia ou à formação necessária para utilizá-la de forma eficaz. Para além da solução óbvia de criar mecanismos que promovam uma maior literacia digital, do lado do utilizador, também temos de olhar o outro lado do espectro: na vertente da criação das soluções. E é aqui que me parece que os gestores, engenheiros, developers, e outros que estejam em cargos de decisão, têm que também aprender sobre o que é a inclusão, porque ela é diferente de integração e como se criam soluções que coloquem os utilizadores no centro da adopção das tecnologias. E aqui pensamos em aspectos tão negligenciados como: indivíduos com necessidades específicas ou menor educação formal. Como os incluímos tanto na adopção e utilização das
Inês Alves

Inês Alves Inês Alves “Todos, sem exceção e na sua diferença individual e genética, fazemos parte da Humanidade. É importante que a sociedade compreenda isto, aceite e inclua todos que dela fazem parte” Inês Alves é uma figura notável no âmbito das doenças raras, em particular no domínio das displasias ósseas. Enquanto membro do Comité dos Medicamentos Órfãos da Agência Europeia de Medicamentos (EMA), membro do ERN BOND – Rede Europeia de Referência para as Doenças Ósseas Raras e doutoranda na área da Acondroplasia, a sua experiência e dedicação à representação dos doentes são singulares. Para além do seu extenso percurso académico e profissional, Inês Alves é fundadora de várias iniciativas, incluindo a ANDO Portugal – Associação Nacional de Displasias Ósseas, e a Beyond Achondroplasia. Com uma forte rede internacional e uma abordagem baseada em dados, Inês Alves está empenhada em criar resultados tangíveis para as pessoas e famílias afectados por displasias ósseas. Nesta conversa relevante com Inês Alves, abordaremos as questões críticas que envolvem as displasias ósseas raras e o papel vital da consciencialização, do apoio e da inclusão na melhoria da vida das pessoas com esta condição. Hoje assinala-se o Dia Mundial das Doenças Raras. Pode explicar-nos porque é que acredita que é crucial que a sociedade conheça a existência de doenças raras e a importância de campanhas de informação e sensibilização para as identificar e respeitar? A genética é a base da nossa existência e é pelas alterações genéticas que hoje existem as populações como as conhecemos atualmente. A genética faz parte de nós como sociedade e como pessoas únicas. E as alterações genéticas continuam a fazer parte da nossa existência, sendo a causa da grande maioria das doenças ou condições raras. Todos, sem exceção e na sua diferença individual e genética, fazemos parte da Humanidade. É importante que a sociedade compreenda isto, aceite e inclua todos que dela fazem parte. Fundou a ANDO Portugal – Associação Nacional de Displasias Ósseas em 2015. Como é que descreveria “displasia óssea” a alguém que não está familiarizado com o termo? Poderia dar uma explicação simples para ajudar-nos a compreender o seu significado e implicações? Displasia óssea origina baixa ou extrema estatura e alterações das dimensões ou formas de partes do corpo humano. Também pode ser designada por condição óssea rara. Estão atualmente identificados 771 tipos de displasia óssea, organizados por 41 grupos com base em critérios genéticos, fenotípicos (aspeto físico), radiológicos e bioquímicos. Embora sejam individualmente raras, têm uma incidência média de 1 caso a cada 5000 nascimentos. As pessoas com uma displasia óssea vivem desafios diários de mobilidade, com impacto significativo na sua vida diária pessoal e social e de “Acessibilidades” que são na realidade, inacessíveis., Tendo em conta a sua experiência profissional e académica, o seu envolvimento na representação de pessoas com doença rara e a jornada pessoal que se seguiu ao diagnóstico de acondroplasia de um dos seus filhos, poderia explicar os princípios ou crenças fundamentais que lhe são mais importantes e que considera serem o seu manifesto orientador? Na realidade não. Representar um grupo de pessoas com experiências de vida relacionadas com uma displasia óssea foi uma decisão muito difícil e ponderada. Não gosto nada da maioria das redes sociais pela distorção da individualidade que se reduz a imagens idealmente bonitas e na necessidade de aparecer neste e naquele momento social como uma quase autoafirmação de valor. Mas infelizmente vivemos na Era das redes sociais e as organizações e entidades têm de mostrar o seu trabalho e projetos por aí. O que me levou a tomar a decisão de fundar a ANDO Portugal, a Associação Nacional de Displasias Óssea, foi a falta de informação, as dificuldades burocráticas e no acesso a cuidados de saúde diferenciados e perceber que tinha de agir pelas outras famílias, pelas outras crianças e adultos que existem no nosso país e que vivem com uma displasia óssea. A minha filha Clara não foi o motivador para a causa, foi sim o despertar para as necessidades. As pessoas foram o meu motivador. “Considero que é essencial as pessoas acederem a informação num formato mais esclarecedor e acessível, e que seja rigorosa e atual. Desta forma, as pessoas têm maior capacidade de participar nos processos de decisão” Como fundadora da ANDO Portugal e do site “Beyond Achondroplasia”, pode falar-nos da missão e dos objectivos destas organizações e da forma como apoiam as pessoas com displasias ósseas raras? O acesso à informação e aumento do conhecimento são os pilares destas iniciativas. Considero que é essencial as pessoas acederem a informação num formato mais esclarecedor e acessível, e que seja rigorosa e atual. Desta forma, as pessoas têm maior capacidade de participar nos processos de decisão. Outro ponto essencial destas iniciativas é gerar mudança na sociedade, pela linguagem escrita e usada. Há ainda termos que a sociedade associa a pessoas com displasia óssea, que são pejorativos e redutores do valor humano e social. Educar a sociedade em geral é o passo fundamental para a forma com as pessoas com displasia óssea são vistas e consideradas. Poderia partilhar connosco os desafios com que se deparam as pessoas que vivem com uma displasia óssea e as famílias, em particular os que resultam de preconceitos sociais? Duas famílias que vivam a realidade do mesmo diagnóstico, vivem desafios pessoais e intransmissíveis! Mas diria que o impacto de um diagnóstico raro é avassalador. Quando se vai a uma consulta médica, espera-se que haja a identificação do problema e talvez da causa, e acima de tudo, espera-se a prescrição de um tratamento ou de um medicamento para que a situação se resolva. Quando uma família é confrontada com um diagnóstico de uma displasia óssea, para 99% dos diagnósticos não existe um tratamento ou medicamento, nem há sequer investigação a decorrer. E a sensação de impotência e fragilidade é avassaladora. Depois, o pai e a mãe podem reagir de forma completamente distinta ao diagnóstico. Contudo, para lá de todos os desafios relacionados
Bruno Neto

Bruno Neto Bruno Neto “Trabalhar em projetos humanitários é, normalmente, sempre em contextos extremamente complicados e em cenários com grandes níveis de imprevisibilidade” Temos, hoje, a honra de entrevistar Bruno G. Neto, um homem de realizações notáveis e empenhado na melhoria da nossa comunidade global. Para além do seu extenso trabalho humanitário e do seu profundo impacto, Bruno G. Neto recebeu a merecida honra de ser distinguido pelo Presidente da República Portuguesa como Cavaleiro da Ordem da Liberdade em 2015. Esta prestigiada Ordem Honorífica Portuguesa é concedida aos que dedicaram as suas vidas aos valores da civilização, da dignidade humana e da causa da liberdade. Enquanto Consultor de Estratégia, Liderança e Gestão, o percurso notável de Bruno G. Neto estende-se por mais de 19 anos de experiência profissional internacional. Os seus esforços incansáveis tocaram os domínios da saúde pública, educação e redução da pobreza na América Latina, África, Ásia e Europa. O que torna a história de Bruno G. Neto verdadeiramente excecional é a sua capacidade de navegar pelas complexidades do trabalho em países em conflito, pós-conflito e em desenvolvimento, fazendo a ponte entre os sectores público, privado e sem fins lucrativos. Na entrevista de hoje, exploramos não só os esforços profissionais de Bruno G. Neto, mas também os aspectos profundamente pessoais do seu percurso de vida. Aprofundamos as suas inspirações, os seus valores e as lições inestimáveis que adquiriu com a sua existência nómada, enquanto discutimos a forma como o seu trabalho desafia os preconceitos e cultiva a mudança positiva. Já viajou pelo mundo e trabalhou em diversos locais, mas poderia falar-nos um pouco do seu percurso pessoal desde a sua cidade natal, Tramagal, até ao seu atual cargo no Office for the Coordination of Humanitarian Affairs (OCHA) das Nações Unidas? O que é que o inspirou a seguir este caminho extraordinário? Tudo começou no Tramagal (Abrantes) que é uma terra com uma vida comunitária muito activa e com muitas associações e por essa razão, é normal que qualquer pessoa da comunidade, pertença aos corpos diretivos ou participe com muita regularidade na vida associativa. Não foi estranho, portanto, que em 1998, juntamente com outros 30 amigos formássemos uma associação juvenil de apoio ao desenvolvimento local – Cistus. Para além de trabalharmos para o desenvolvimento local e na vertente cultural (organizámos vários festivais interculturais), ao mesmo tempo, começámos a fazer intercâmbios com países da europa e do mediterrâneo. Fez exatamente no mês de janeiro de 2024, 20 anos que iniciei a minha experiência internacional, ao participar num intercâmbio de jovens na Jordânia, liderando a equipa de jovens portugueses. O intercâmbio correu bem, desempenhei bem o meu papel na organização e, como tinha acabado de terminar a universidade, fui convidado para fazer voluntariado por um ano em Amã. Foi a partir de daí que comecei a trabalhar, que entendi que poderia ser algo mais do que aquele rapaz do Tramagal que ouviu a vida toda – nunca serás ninguém, e foi, também, aí que me apaixonei pelo conceito do “outro”, e que entendi que poderia ter impacto com o meu trabalho e ao mesmo tempo crescer como pessoa e como profissional. Entendi, então, que o mundo era, realmente, redondo e que até agora nunca parou de girar. Trabalhar em projectos humanitários em ambientes difíceis pode ser emocional e fisicamente exigente. Pode falar-nos sobre as motivações e os valores pessoais que o levam a continuar o seu trabalho, apesar dos desafios, e de que forma isso se relaciona com o seu empenhamento na mudança de mentalidades? Trabalhar em projetos humanitários é, normalmente, sempre em contextos extremamente complicados e em cenários com grandes níveis de imprevisibilidade. É esse constante desafio que faz com que eu trabalhe com muita intensidade, nem sempre com muitos recursos, obrigando-me a aprender muito rapidamente, a compreender os contextos, as equipas, os projetos e com isso, encontrar, prontamente, soluções para ajudar a resolver as questões humanitárias. Esse constante desafio, para mim, sempre foi fundamental e fulcral, pois a partir do momento que sinta que já não estou a aprender, sei que é tempo de mudar. Por essa razão e por uma questão de política muito pessoal, não assino contratos de mais de 6 meses, e no final desses 6 meses, avalio o meu nível de felicidade pessoal e profissional, analizando se vale a pena continuar, se continuo a aprender, a ser desafiado e se o meu trabalho de base foi completado. Caso sinta que deixo um sistema de gestão organizado e funcional, é então, a altura de mudar. Esta é a minha forma de estar, e por isso entendo, que um dos principais fatores para que se compreenda o “lado B” do mundo, seja a mudança das mentalidades. Esse “lado B” acaba por ser a paixão que trago muitas vezes para o “lado A”, desafiando as pessoas que vivem num mundo privilegiado, com muito pouca noção do que é a vida da maior parte das pessoas desse tal “lado B”. É esse gap, que sinto como parte da minha missão. Chegar cá, criar desconforto e trazer a visão composta por todas as minhas experiências em mais de 40 países e fazer com que esse desconforto se torne um processo que provoque nas pessoas, um questionamento e quem sabe, uma mudança de mentalidade. “muitas das pessoas que tenho desafiado (espero que positivamente) acabam por por ficar mais atentas, a questionar mais aquilo que ouvem nos meios de comunicação e no mundo à sua volta” Com a sua vasta experiência de trabalho em projectos humanitários em todo o mundo, testemunhou o impacto do preconceito em inúmeras pessoas. Pode partilhar um exemplo particularmente poderoso de como desafiar esses preconceitos levou a uma mudança positiva e à capacitação de uma comunidade ou de um indivíduo? A mudança de mentalidade é um processo bastante longo e complexo. Na maior parte das vezes, não acontece pelo confronto direto mas sim por por uma argumentação inteligente, que faça ou que crie, um natural contraditório em que a pessoa que ouve, acabe eventualmente por questionar o
Paula Guimarães

Paula Guimarães Paula Guimarães “A palavra de ordem deve ser preparar a longevidade, estimular que as pessoas sejam donas da sua vontade em qualquer momento e em qualquer idade e promover a sua reflexão crítica e o planeamento das etapas mais avançadas da vida.” Na nossa análise do preconceito de idade no enquadramento legal, vamos aprofundar questões críticas em torno da proteção e dos direitos dos indivíduos mais velhos. Para tal, temos o privilégio de conversar com Paula Guimarães, uma jurista experiente cuja carreira se estende por mais de três décadas em organizações públicas e da economia social nos domínios da Intervenção Social, Envelhecimento, Reinserção Social, Responsabilidade Social e Voluntariado. A sua dedicação ao bem-estar da sociedade vai para além dos seus conhecimentos jurídicos, actualmente ocupa o cargo de Coordenadora do Observatório da Responsabilidade Social e das Instituições de Ensino Superior (ORSIES), é também dirigente associativa, formadora, promotora da Casa Museu Oliveira Guimarães e docente em programas de pós-graduação e mestrado em sustentabilidade, economia social e envelhecimento. Com a nossa convidada, Paula Guimarães, iremos analisar aspetos jurídicos específicos, desde a definição de preconceito de idade até às salvaguardas existentes para as pessoas mais velhas, assim como explorar as complexidades da justiça intergeracional, políticas de reforma e disposições de direito civil. No nosso atual quadro jurídico, existe alguma definição formalmente reconhecida para o preconceito de idade? Não, nem sequer referência à idade como potencial fator discriminatório no contexto do artigo 13º da Constituição. Para combater o idadismo só nos podemos socorrer do artigo 21º da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia. Que vias de recurso estão disponíveis para as pessoas que se consideram vítimas de preconceito de idade? Pode fornecer-nos informações sobre organizações ou entidades específicas que oferecem apoio e assistência a pessoas vítimas de violência ou discriminação relacionada com a idade? O conceito de vítima do preconceito da idade é válido para todas as pessoas de todas as idades. Em determinados aspetos os jovens também são prejudicados em razão da idade. A discriminação tendo por base a idade pode ser denunciada recorrendo ao artigo anteriormente referido da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia. Podemos recorrer à Provedoria de Justiça se se tratar de um ato praticado pela administração pública ou às estruturas de defesa do consumidor se for no contexto comercial. Nem todos os casos de discriminação em razão da idade podem ser qualificados como crime ou considerados atos de violência. Nestes últimos casos as pessoas devem recorrer às estruturas policiais e judiciais adequadas e naturalmente ao apoio da APAV. “O conceito de vítima do preconceito da idade é válido para todas as pessoas de todas as idades. Em determinados aspetos os jovens também são prejudicados em razão da idade.” Considerando a reconhecida necessidade de um quadro legal eficaz para proteger as pessoas idosas do abuso e da violência, como podem os sistemas legais encorajar a denúncia por parte das vítimas idosas que muitas vezes sofrem danos graves sem revelar incidentes de violência familiar? Não reconheço essa necessidade e sou totalmente contra legislação específica dirigida a pessoas mais velhas. Esse é o pior tipo de idadismo. As pessoas mais velhas são adultas, na posse de todos os direitos e deveres. Não é a idade que as torna vulneráveis, são as dependências ou perdas de capacidade, que podem existir em todas as idades. Temos legislação suficiente para proteger os mais vulneráveis, Não precisamos de mais legislação, precisamos de alterar algumas dimensões nomeadamente no Direito de Família e Direito Sucessório, de mudar atitudes e de combater a iliteracia jurídica dos cidadãos, em especial os familiares das pessoas mais velhas e os profissionais. Existem todos os mecanismos suficientes, as pessoas é que não os conhecem ou não os utilizam. Tendo em conta que uma relação familiar não legitima nenhum membro da família a tomar decisões sobre a pessoa maior ou os seus bens, que enquadramento legal específico existe em Portugal para salvaguardar as pessoas idosas, especialmente as que se encontram em situações mais vulneráveis? Como se define a fronteira entre a intervenção familiar ativa que visa garantir a qualidade de vida da pessoa idosa e as ações que podem ser consideradas abusivas ou atentatórias da sua autonomia e dos seus direitos? A fronteira é simples. Os familiares com obrigação de alimentos têm o dever de apoiar a satisfação das necessidades das pessoas mais velhas se tiverem condições para isso. Os familiares a quem a pessoa idosa atribui mandato podem atuar dentro dos limites do mandato. Os familiares reconhecidos como cuidadores informais nos termos da Lei nº100/2019 têm o dever de prestar cuidados e os familiares que tenham sido nomeados acompanhantes pelo tribunal em caso de capacidade diminuída devem assumir a representação legal das pessoas em situação de incapacidade. Fora destas situações os familiares não têm nenhum poder de interferir, decidir ou administrar. Como é que a passagem do anterior sistema de interdição e inabilitação para o atual Regime do Maior Acompanhado, implementado desde 2019, afetou especificamente as pessoas idosas? Em particular, que mudanças nos papéis, direitos e proteções surgiram para as pessoas mais velhas à medida que os antigos tutores transitam para acompanhantes e os cidadãos interditos se tornam adultos acompanhados? O regime não é para as pessoas idosas! É muito importante que isso seja claro. O regime é para as pessoas que perderam a sua capacidade cognitiva. A maioria das pessoas idosas não precisa do regime e muitas pessoas mais jovens precisam. Nesse sentido não houve nenhum impacto específico para este grupo populacional. Globalmente as grandes mudanças foram a vontade das pessoas com perda de capacidade, a graduação e personalização das medidas e a possibilidade de outras pessoas assumirem o papel de acompanhantes para além dos familiares. No contexto da idade de reforma obrigatória para os trabalhadores públicos aos 70 anos, como é que esta política se alinha com os princípios da justiça intergeracional, tendo em conta factores como a evolução da esperança de vida, a variedade de competências e as potenciais contribuições dos indivíduos para além da idade
Amélia Amil

Amélia Amil Amélia Amil “A Língua Gestual não é universal, cada país tem a sua. Porquê? Uma interrogação constante. Ao longo do meu trabalho desfiz este mito milhares de vezes, a língua gestual, é uma língua visual tendo a sua génese na cultura local.” Hoje temos a honra de conversar com Amélia Amil. Desde 1985, tem estado na linha da frente dos esforços para estabelecer a Língua Gestual Portuguesa como uma forma de comunicação respeitada e reconhecida. O percurso de Amélia Amil tem sido marcado pela sua vasta experiência de interpretação e pelo seu papel como catalisadora de mudanças sociais, como por exemplo, a sua participação na produção do primeiro dicionário de Língua Gestual Portuguesa, “GESTUÁRIO”, publicado pela SNR – DGEB em 1991. O legado de Amélia Amil caracteriza-se pela sua abordagem multifacetada à defesa dos direitos da comunidade surda, desde iniciativas educativas, representação nos meios de comunicação social (foi a primeira intérprete de língua gestual na RTP1 Norte e mantem hoje a sua presença enquanto intérprete residente de Língua Gestual no PORTO CANAL) até ao seu empenho contínuo como intérprete de língua gestual para diversos eventos assim como para diversas associações, como por exemplo, o Centro de Apoio aos Sem Abrigo (CASA). Tendo em conta a sua experiência enquanto CODA – Children of Deaf Adult (filha de Pais Surdos nativos de Língua Gestual), pode partilhar connosco experiências específicas ou destacar pessoas que desempenharam um papel importante na formação da sua identidade, valores e no seu empenho nesta causa? Cada pessoa CODA, viveu a sua experiência. No meu caso, vivi no seio de uma família de parcos recursos económicos. Muitas dificuldades financeiras, uma família muito reduzida e a terceira filha num total de quatro filhas.Assim que tive consciência da minha identidade, entendi que, tinha de cuidar de mim e dos meus pais e mais tarde de uma irmã mais nova. Eu era o apoio dos meus pais e de mim própria, era eu a ponte de comunicação em Língua Gestual dos meus pais para o mundo.Foi uma infância completamente engolida. Muito entregue à minha sorte. Tinha todos os ingredientes para ser potenciada em mim uma marginalidade infernal. No entanto vivi no inferno, tentando acreditar que poderia chegar ao paraíso. A esperança foi sempre a minha inspiração. Desde tenra idade, não sabia o que queria da vida, mas sabia convictamente o que não queria. Ter vivido o drama de ter sido vítima de abusos, que silenciei a medo, na adolescência que acabei por não viver. A palavra responsabilidade em mim pesava toneladas.Quem mais me inspirou, foi o meu pai e a comunidade surda, onde me ancorei, acreditando sempre que no meu mundo eu estava salvaguardada. Era o lugar onde estava entre pares e sem aparentes, riscos acrescidos. O meu pai foi o primeiro surdo empresário, dono de uma tipografia, uma grande inspiração de perseverança em nunca desistir de desafios constantes… O meu pai foi sem dúvida, a pessoa que mais me inspirou.Todas as vidas têm um “mas”. O meu foi quando aos catorze anos, vivi uma situação exaustiva de abandono. Nesta condição de sentir “morrer na praia”, consegui traçar o plano perfeito neste meu mundo imperfeito. Daí em diante foi sempre lutar até ao máximo das minhas forças mentais e físicas.Tornei-me uma ativista da comunidade surda, fui a primeira funcionária formal da Associação Portuguesa de Surdos do Porto, onde trabalhei quase 20 anos. Dediquei-me por completo pela comunidade surda, ”meus pares”, em tribunais, exames de código para obtenção de carta de condução, formação, passando pela empregabilidade de pessoas surdas, alfabetização, entre outras múltiplas ações como acompanhar pessoas surdas em diferentes departamentos do SNS, segurança social, autarquias, PSP, GNR e muitas outras atividades de comunicação essenciais e de sobrevivência para os surdos. A minha prioridade (a seguir às minhas filhas), são sempre as pessoas surdas. Sempre!Hoje aos 63 anos, fiz as pazes, possíveis, com todos os sofrimentos que vivi.Hoje sou muito feliz. Vivo como um sonho uma vida plena como antes não havia experienciado. Na sua qualidade de activista pela importância da língua gestual, facilita e promove ativamente iniciativas de formação. Gostaríamos de saber quem é que geralmente se inscreve nas aulas e que diversidade ou características comuns observa entre os alunos, tendo em conta factores como a origem, as motivações e a sua abordagem à aprendizagem da língua gestual? Eu defendo que a formação da Língua Gestual deve ser, sempre que possível, desenvolvida pelas pessoas surdas. Caso não haja disponibilidade, nesse caso intervenho enquanto formadora. Para obtenção de aprendizagens da Língua Gestual Portuguesa, quem me procura são pessoas que necessitam de currículos e ferramentas funcionais, ou seja, ensino o vocabulário necessário para o fim em vista, como exemplo, os enfermeiros, dão-me uma listagem do vocabulário mais usual que necessitam em Língua Gestual e eu ensino dentro desta necessidade.Quem mais me procura são: enfermeiros, entidades com fins humanitários, professores nas escolas do 1º. Ciclo entre outros.A pandemia (Covid 19) acabou por dar grande visibilidade aos intérpretes de Língua Gestual, provocando o desejo de aprender esta Língua a muitas pessoas. Neste caso remeto os interessados para as Associações de surdos, que habitualmente abrem inscrições para cursos. A língua gestual, incluindo a Língua Gestual Portuguesa (LGP), é uma forma de comunicação expressiva e cheia de significado, com uma gramática e um vocabulário únicos. Para os interessados em aprofundar o conhecimento desta língua, pode dar uma explicação mais detalhada sobre o que é a língua gestual? Além disso, pode partilhar informações sobre cursos ou instituições específicas que se destinam a pessoas interessadas em aprender e compreender a Língua Gestual Portuguesa? A Língua Gestual não é universal, cada país tem a sua. Porquê? Uma interrogação constante. Ao longo do meu trabalho, desfiz este mito milhares de vezes. A língua gestual, é uma língua visual tendo a sua génese na cultura local. Para melhor entendermos, a ação de pescar um peixe, em Portugal ou África não é igual. Daí o gesto ser diferente em cada país. A criação do gesto advém de ser “espontâneo, imediato,