Festival Impacto

Lisa Vicente

Lisa Ferreira Vicente Lisa Ferreira Vicente “A saúde sexual é um aspeto vital da saúde de cada individuo, como é reconhecido há anos, nomeadamente pela Organização Mundial de Saúde. Contudo, constitui com frequência um desafio em várias sociedades” Hoje temos o prazer de conversar com Lisa Ferreira Vicente, uma ginecologista, obstetra e sexóloga cuja carreira reflecte um profundo empenho na promoção da saúde sexual e reprodutiva em Portugal. Com experiência como colaboradora no Programa Nacional de Saúde Reprodutiva e como chefe da Divisão de Saúde Sexual, Reprodutiva, Infantil e Juvenil da Direção-Geral da Saúde, contribuiu significativamente para a definição de políticas de saúde. Trabalhou no Serviço de Medicina Materna e Fetal da Maternidade Dr. Alfredo da Costa, consolidando ainda mais o seu papel como uma autoridade de confiança na sua área. Os seus conhecimentos abrangem diversos temas como contraceção, menopausa, saúde sexual, saúde reprodutiva na pessoa com diabetes, sexologia e disfunções sexuais, saúde trans e género diversa. Para além do seu trabalho clínico, Lisa Vicente deixou uma marca indelével através das suas contribuições académicas. É autora e coautora de vários textos científicos e autora do Atlas da V, que se debruça sobre as complexidades da anatomia e da sexualidade femininas. Tem também desempenhado um papel fundamental como formadora em Sexologia Clínica, programas de pós-graduação em Sexualidade Humana e estudos de doutoramento, promovendo uma nova geração de profissionais equipados para enfrentar os desafios em evolução da saúde sexual. Lisa Vicente defende a quebra de tabus e a expansão do discurso em torno da saúde sexual. E sem tabus ou preconceitos, nesta entrevista, falaremos sobre as persistentes lacunas educacionais na compreensão da anatomia feminina, os debates sociopolíticos em torno da educação sexual e o silenciamento cultural e médico da sexualidade feminina, os desafios enfrentados pelos indivíduos LGBTQIA+ no acesso a cuidados inclusivos e a interação vital de factores físicos, relacionais e culturais na abordagem da menopausa e da saúde sexual. No seu livro, O Atlas da V, utiliza um título simbólico em vez de nomear explicitamente a vulva e ou a vagina, temas centrais da obra. O que a levou a escolher esta representação mais abstrata e como é que esta escolha reflete o desconforto social ou o tabu que rodeia as discussões abertas sobre a anatomia feminina? Durante o processo de escrita do livro o ficheiro tinha o nome de Vitória. Penso que o escolhi inconscientemente, mas com o tempo fui-lhe atribuindo a significância da vitória de poder escrever sobre vulva e vagina assim como sobre a sua invisibilidade no discurso social. “Para mim V é de vulva, de vagina e da vitória de as conhecer na sua diversidade, de as conseguir nomear sem vergonha ou receio. Um percurso e um desafio que continua a fazer sentido” O título e a capa de um livro, não são uma escolha apenas do autor, mas uma escolha conjunta com a editora. Para mim era importante trazer ao conhecimento a vulva. Abordar a diversidade da vulva, mostrá-la em ilustrações em que se percebesse que são todas diferentes, como todas as caras e mãos são diferentes.  Porque em nome do desconhecimento desta diversidade, que é individualidade, muitas pessoas sofrem a angústia de «não se sentirem normais» ou sentir que têm de se submetem a cirurgias ou intervenções para modificar os seus genitais. Em nome da «normalidade» que é um conceito que decorre de um tempo histórico e de uma sociedade especifica. E que muda. Por isso, para mim, V seria sempre a vulva. Mas ter Vulva na capa de um livro em 2019 era difícil. Como explico a seguir, a palavra «mais arrojada» para designar os genitais externos femininos tinha sido vagina. Para mim V é de vulva, de vagina e da vitória de as conhecer na sua diversidade, de as conseguir nomear sem vergonha ou receio. Um percurso e um desafio que continua a fazer sentido. Apesar da crescente abertura e consciencialização para a educação sexual, porque é que a confusão entre os termos “vulva” e “vagina” persiste, mesmo entre as mulheres, e o que é que isto revela sobre as lacunas educacionais na compreensão da anatomia feminina? A palavra vulva não era nomeada no discurso social, não apenas em Portugal. Com alguns exemplos, pode ser mais simples mostrar o que estou a dizer. – «Os monólogos da Vagina» uma peça de teatro de 1996 escrita por Eve Ensler (V como se identifica desde 2019 ) fala várias vezes dos genitais externos- vulva- mas designando-a de vagina. – A obra do artista Jamie McCartney denominada «The Great Wall of Vagina» é constituída por moldes em gesso de 400 vulvas diferentes. Sempre utilizei algumas das suas imagens em formações, conferências e até em consulta para mostrar como eram diferentes as vulvas. Contudo, e apesar de ser uma obra muito significativa, a designação mais uma vez não era a correta. Esta obra esteve em Portugal na primeira exposição do projeto MUSEX (Museu Pedagógico do Sexo): Amor Veneris — Viagem ao Prazer Sexual Feminino do  MUSEX — . Exposição patente ao público entre junho de 2022 e março de 2023. Em outubro de 2022, quando o artista esteve em Lisboa decidiu, finalmente, modificar a designação da obra para «The Great Wall of Vulva». Em 2018 no jornal El País, li numa curiosa publicação denominada «Entrevista imaginaria à vulva: Que mal he hecho para sufrir esta persecusion?». Um texto de Rita Abundancia que o introduzia da seguinte forma: Falámos com a genitalia externa feminina que sai da sua invisibilidade e reclama o seu território e autonomia à margem da vagina. Que achei uma forma curiosa e divertida de confrontar os leitores com esta questão. De que forma é que o silenciamento histórico do clítoris tanto no discurso médico ou cultural e a desinformação de longa data em torno dos orgasmos femininos podem de certa forma anular a sexualidade feminina? As estruturas que constituem o clítoris estão descritas pelos anatomistas clássicos do fim do seculo XIX, como por exemplo Testut e Laterget, mas não como uma estrutura una como

Elgar Rosa

Elgar Rosa Elgar Rosa “hoje, quando falamos de polarização, lembramo-nos imediatamente da comunicação política e do crescimento da extrema direita. Como cidadão, custa-me que o discurso político moderado não tenha evoluído e tenha permitido que a extrema direita tenha encontrado nele material combustível para trazer a “conversa de café” para a Assembleia da República” Numa época marcada pela rápida transformação digital e por um fluxo avassalador de informação, o papel das agências de comunicação e relações públicas nunca foi tão crítico para enfrentar os desafios relacionados com a forma de comunicar, a transparência, as práticas éticas e a responsabilidade social. Elgar Rosa, fundador e diretor executivo da Pure, uma afiliada da Rede 3AW, e membro da Direção da Operação Nariz Vermelho, é nosso convidado nesta entrevista. Junte-se a nós enquanto exploramos a forma como uma comunicação eficaz pode conduzir a mudanças significativas e repercutir-se num mundo frequentemente caracterizado pela sobrecarga de informação e pela alteração das expectativas da sociedade. Elgar Rosa partilhará connosco os seus conhecimentos sobre como equilibrar mensagens impactantes com considerações éticas, adaptar estratégias ao cepticismo crescente dos consumidores e aproveitar a comunicação para promover a justiça social e a inclusão. Elgar Rosa irá, também, abordar a forma como o envolvimento da Pure com causas sociais e com as artes não só molda a sua missão, como também aumenta o seu impacto global. Numa época de sobrecarga de informação e de rápida transformação digital, como podem as agências de comunicação e relações públicas, como a Pure, equilibrar eficazmente a necessidade de mensagens impactantes com a crescente procura de transparência e considerações éticas na narrativa de uma marca ou produto?  Não creio que sejam as relações públicas, mas todas as entidades que comunicam, sobretudo fontes organizadas de informação, sejam empresas, agências de relações públicas ou comunicação, assessores de imprensa ou diretores de comunicação. A comunicação estratégica e assessoria de imprensa existem para amplificar mensagens de empresas, instituições ou pessoas que possam ser consideradas notícia pelos jornalistas, que nem sempre têm tempo ou recursos para fazer fact check. Parte do trabalho das agências e dos assessores de imprensa é trazer este layer de confiança a um conteúdo que chega de uma fonte identificada, com a qual os jornalistas estão habituados a trabalhar. Apesar de muitos verem, por exemplo, a inteligência artificial como uma ameaça ao trabalho das agências, sinto que agora, mais do que nunca, os jornalistas precisam de saber quem lhes envia a informação, para se assegurarem da fiabilidade do conteúdo. À medida que as expectativas da sociedade evoluem, particularmente em torno de questões de justiça social e responsabilidade ambiental, como é que as estratégias de comunicação se podem adaptar para lidar com o cepticismo crescente dos consumidores, cada vez mais desconfiados do ativismo performativo e social washing? Com honestidade e ação, mais do que com discursos redondos e iniciativas confortáveis e pouco diferenciadoras. Um estudo de 2024 da Edelman realizado em 28 países revelou, entre outros, que as pessoas confiam mais nas empresas do que nos governos para liderar a mudança social. Outros estudos referem que, quando garantida a qualidade ou o preço comparável, 91% dos consumidores preferem marcas associadas a causas justas. Campanhas como a Nike (For once, Don’t do It ou Dream Crazy), Airbnb (We Accept ou Airbnb Ukraine Campaign), Ben & Jerry’s (Stop Hate for Profit ou If It’s Melted, It’s Ruined ) foram mais do que arrojadas por assumirem uma posição ou convidarem à ação relativamente a temas sociais ou ambientais. Geraram um comprovado efeito positivo no público alvo, além de terem promovido a discussão online e offline. “Como cidadão, custa-me que o discurso político moderado não tenha evoluído e tenha permitido que a extrema direita tenha encontrado nele material combustível para trazer a “conversa de café” para a Assembleia da República” Enquanto especialistas em comunicação, qual é a sua opinião sobre a crescente prevalência do discurso polarizado, tanto nos debates políticos como nas interações entre indivíduos nas redes sociais? É correto considerar que esse conteúdo polarizado gera maior envolvimento em comparação com uma comunicação equilibrada e inclusiva? Existirá um apelo inerente ou uma gratificação psicológica associada ao consumo ou à participação de um discurso polarizado? A minha opinião sobre este tema é enquanto cidadão e não como especialista em comunicação, porque acredito que este é um tema social, mais do que de comunicação. Não me sinto habilitado para falar em conceitos como efeito Dunning-Kruger (uma distorção cognitiva de pessoas, que, com acesso a pouca informação, têm tendência para se sentirem qualificadas a falar sobre os mesmos) ou no papel dos algoritmos na estimulação do fenómeno do discurso polarizado. No entanto, hoje, quando falamos de polarização, lembramo-nos imediatamente da comunicação política e do crescimento da extrema direita. Como cidadão, custa-me que o discurso político moderado não tenha evoluído e tenha permitido que a extrema direita tenha encontrado nele material combustível para trazer a “conversa de café” para a Assembleia da República. Se somarmos a esta circunstância do “eles dizem o que eu penso” à pressão com que o algoritmo das redes sociais nos confronta com posições extremadas, está feito o convite ao confronto, quase sempre verbalmente agressivo, mas inconsequente. No entanto, pode rapidamente escalar para um nível de violência perigosa, sobretudo para com minorias. “é verdade que a ditadura do clickbait e a necessidade de ter tráfegos “apetitosos” para anunciantes leva alguns meios de comunicação social a caírem na tentação de terem conteúdos questionáveis do ponto de vista jornalístico. Ainda assim do meu ponto de vista isso não belisca o trabalho de qualidade da maior parte dos jornalistas” Perante a crise do jornalismo tradicional e a ascensão do jornalismo online, que muitas vezes esbate a linha entre entretenimento e notícias ao dar prioridade ao impacto viral em detrimento da informação factual. Que estratégias podem os profissionais dos meios de comunicação e as agências de relações públicas empregar para preservar a integridade da informação e, ao mesmo tempo, cativar audiências que são cada vez mais atraídas por conteúdos sensacionalistas em detrimento do jornalismo factual?

Ana Rita Victor

Ana Rita Victor Ana Rita Victor “Parar o envelhecimento é algo contranatura e impossível. Mas há um conjunto de decisões e ações que se podem tomar para que o “envelhecimento seja mais saudável”, ou seja, encurtar o período da cronicidade das doenças, permitindo viver mais tempo com mais saúde, próximo de quem se gosta, usufruir dos talentos e das coisas boas da vida” Hoje temos o privilégio de conversar com Ana Rita Victor, uma distinta cardiologista e especialista em Smart Aging. A sua carreira começou com uma licenciatura na Faculdade de Medicina de Lisboa em 1997 e numa especialização em Cardiologia em 2006. As suas funções como Chefe da Unidade de Cuidados Intensivos Coronários e Coordenadora do Laboratório de Ecocardiografia do Hospital Pulido Valente reflectem a sua vasta experiência e liderança nesta área. Com um grande interesse na intersecção entre a medicina funcional e o envelhecimento, obteve qualificações adicionais, adquirindo o Wosaam Board Certification em anti-aging medicine e especializações em medicina anti-envelhecimento em “Cardiometabolic Advanced Practice” e “Hormone Advanced Practice”. Durante o seu percurso deu palestras em simpósios e workshops, abordando temas como a suplementação hormonal com testosterona e o risco cardiovascular, stress oxidativo e anti-envelhecimento, prevenção cardiovascular e síndrome metabólico. Nesta entrevista, Ana Rita Victor irá esclarecer como é a sua abordagem ao “envelhecimento inteligente”, oferecendo uma perspetiva crítica sobre as dimensões sociais e biológicas da menopausa e da andropausa. Iremos aprofundar os desafios dos mitos prevalecentes, as disparidades de género e a necessidade de cuidados individualizados. Iremos também abordar que avanços tecnológicos e ferramentas emergentes teremos para revolucionar a gestão do envelhecimento, abrindo caminho para tratamentos mais personalizados e eficazes. Ao longo da sua distinta carreira em cardiologia desempenhou funções de chefia e coordenação na área dos cuidados intensivos e ecocardiografia. O que a motivou a expandir o seu foco para incluir a medicina funcional e o envelhecimento? Como é que integra a sua vasta experiência em cardiologia com estes campos emergentes para abordar as complexidades do envelhecimento e melhorar os cuidados gerais dos doentes? Na Faculdade de Medicina logo me interessou a Cardiologia. Para mim é a especialidade mais interessante, com maior diferenciação tecnológica e com visível impacto na vida dos doentes.  Na altura, no último ano do curso, tínhamos de escolher duas cadeiras opcionais, eu escolhi Cardiologia e Endocrinologia. Fruto de um problema de fertilidade, fui procurando conhecimento nesta área, através da American Society of Endocrinology, British Sociey of Endocrinology e World Society of Anti-Aging Medicine. Mais tarde, fui-me interessando cada vez mais pelo impacto das hormonas na vida das pessoas, na verdade foi um processo que decorreu sempre em paralelo com a Cardiologia. Queria ajudar pessoas com condições idênticas à minha que não sentissem a aridez de informação, como eu, na altura. À medida que ia desenvolvendo o meu interesse por longevidade, comecei a perceber que teria de aprofundar os meus conceitos a nível do metabolismo celular e genética. Por ser uma pessoa curiosa, fui buscando conceitos que me permitissem ajudar os meus doentes. “Importa referir que “inflamação silenciosa” desempenha um papel importante no processo de envelhecimento e no desenvolvimento de várias doenças relacionadas com a idade” Há um interesse crescente pela inflamação crónica e pelo que está a ela subjacente.  A par desta busca fui paulatinamente entrando no mundo da medicina funcional e da compreensão do envelhecimento.Sendo cardiologista, comecei por me dedicar à aterosclerose, porque é que certos doentes com colesterol alto tinham doença coronária e outros doentes (com os mesmos fatores de risco) não apresentavam doença coronária? Qual o papel da inflamação na formação da placa de ateroma? Como minimizar a inflamação? Como alterar estilos de vida com impacto na inflamação?Estas passaram a ser as minhas coordenadas. Importa referir que “inflamação silenciosa” desempenha um papel importante no processo de envelhecimento e no desenvolvimento de várias doenças relacionadas com a idade.Como médicos fomos treinados a olhar para os sintomas, sinais, fazer o diagnóstico e estabelecer um plano terapêutico.  Não fomos sensibilizados ao longo das décadas a considerar o que de comum têm as doenças crónicas, importa sim, ou importava sim, controlar os sintomas nas doenças crónicas e evitar as situações potencialmente agudas com estratificações de risco e em última análise evitar que o utente morresse. “o «smart-aging» nome que escolhi há 10 anos, coloca a pessoa como co-autora da sua saúde, numa atitude vigilante, aceitando o envelhecimento, mas redefinindo-o e, mais importante que tudo, atuando sobre ele.” O Preconceito contra o envelhecimento prevalece em muitas sociedades muitas vezes reforçado pelo termo anti aging utilizado nas práticas médicas e estéticas. Em contrapartida, define a sua especialidade como smart aging. De que forma é que esta designação não só desafia os preconceitos e estereótipos associados ao envelhecimento, como também promove uma mudança de foco do combate ao envelhecimento para a sua adoção como uma fase natural, controlável e até enriquecedora da vida? “Smart aging” não é uma especialidade, tal como “anti-aging” não é. As sociedades americanas e europeias usam essa designação, mas nunca me revi nela. Mais do que «anti-aging», por envolver a palavra “anti”, como que se de um combate se tratasse, o «smart-aging» nome que escolhi há 10 anos, coloca a pessoa como co-autora da sua saúde, numa atitude vigilante, aceitando o envelhecimento, mas redefinindo-o e, mais importante que tudo, atuando sobre ele. Parar o envelhecimento é algo contranatura e impossível. Mas há um conjunto de decisões e ações que se podem tomar para que o “envelhecimento seja mais saudável”, ou seja, encurtar o período da cronicidade das doenças, permitindo viver mais tempo com mais saúde, próximo de quem se gosta, usufruir dos talentos e das coisas boas da vida. “O declínio dos níveis de testosterona associadas ao envelhecimento é pouco discutido, muitas vezes até mal interpretado e com muitos mitos associados. Ao contrário da menopausa que é amplamente reconhecida e aceite socialmente a “andropausa” ainda é vista com ilegitimidade” Os mitos em torno do envelhecimento e da sexualidade podem levar a sentimentos de constrangimento ou negação tanto para os homens como para

Jorge Vala

Jorge Vala Jorge Vala “Temos dificuldade em reconhecer o preconceito onde ele está efetivamente presente, por isso ele se mantém de forma tão insidiosa. Para além disso, nem sempre o preconceito se expressa através de opiniões diretamente negativas, pode ser expresso por ausência de apreciações positivas ou pela referência a aspetos positivos não socialmente valorizados” Jorge Vala, uma figura de destaque no domínio da psicologia social, traz clareza e experiência para a entrevista de hoje. Doutorado em Psicologia Social pela Universidade de Louvain, foi Professor Catedrático do ISCTE-IUL e Investigador Coordenador no ICS da Univ. de Lisboa, instituição em que é presentemente Investigador Emérito. Foi Professor Convidado em várias Universidades, entre as quais a Univ. de Paris Descartes, a Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, a Univ. Estadual do Rio de Janeiro e a Univ. Federal da Paraíba. Tem sido um membro influente e líder em várias associações profissionais, como a Associação Europeia de Psicologia Social e a Associação Portuguesa de Psicologia, e coordenou importantes projetos de investigação internacionais, como o European Social Survey e o European Values Study. Os seus contributos têm sido reconhecidos com prestigiados prémios, incluindo o Prémio Jean Paul Codol da European Association of Social Psychology A sua investigação abrange a aprendizagem da violência e os conflitos entre grupos sociais incluindo a complexa dinâmica entre identidade, justiça e legitimidade no contexto do racismo, do preconceito e da migração. Nesta entrevista, exploramos a definição de preconceito, a narrativa do colonialismo português, o aumento da discriminação na Europa, o racismo biológico e cultural e o impacto da democracia nestas questões. Também discutiremos os mecanismos psicológicos que reforçam o comportamento discriminatório e as possíveis estratégias para lidar com o descontentamento social e o preconceito em Portugal. Como define o preconceito?  É sempre bom nestas definições começar por um dicionário. Por exemplo, no Houaiss encontramos como definição de preconceito, e cito, qualquer opinião ou sentimento, quer favorável, quer desfavorável, sem exame crítico. Mantendo este sentido, no contexto desta entrevista, vou ser mais específico e adoto a definição segundo a qual o preconceito é uma opinião, atitude ou crença negativa, sem fundamentação, relativamente a um grupo ou a um membro de um grupo pelo simples facto de fazer parte desse grupo. Genericamente, esta é a definição adotada em ciências sociais, e especificamente pela psicologia social, para referir um fenómeno que está no centro dos conflitos sociais. “A construção do preconceito está intrinsecamente associada a processos psicológicos básicos como a categorização dos humanos em “nós” e “eles” A construção do preconceito está intrinsecamente associada a processos psicológicos básicos como a categorização dos humanos em “nós” e “eles”.  De facto, o preconceito estrutura-se em relações sociais baseadas em categorizações socialmente relevantes como o género, a idade, as orientações sexuais, supostas diferenças raciais ou étnicas, etc. É nestas relações baseadas em pertenças sociais que as várias facetas do preconceito jogam um papel fundamental, desde logo através de uma pré-avaliação negativa do outro e através dos estereótipos negativos que associamos a pessoas que não classificamos como membros dos nossos grupos. Por exemplo, veja-se como no contexto das sociedades atuais os estereótipos sobre as pessoas negras ou sobre imigrantes funcionam como geradores de expectativas e justificações, tal como acontece com pessoas com orientação sexual diferente da maioria, com pessoas classificadas como jovens e idosas, etc. “Temos dificuldade em reconhecer o preconceito onde ele está efetivamente presente, por isso ele se mantém de forma tão insidiosa. Para além disso, nem sempre o preconceito se expressa através de opiniões diretamente negativas, pode ser expresso por ausência de apreciações positivas ou pela referência a aspetos positivos não socialmente valorizados” O preconceito faz parte de um conjunto mais vasto de processos cognitivos que tornam o ambiente social significativo e percebido como controlável. Muito importante, o que aqui se define como preconceito é sentido na vida quotidiana não como uma perceção enviesada ou errada, mas como um reflexo da realidade. Este aspeto é fundamental. Temos dificuldade em reconhecer o preconceito onde ele está efetivamente presente, por isso ele se mantém de forma tão insidiosa. Para além disso, nem sempre o preconceito se expressa através de opiniões diretamente negativas, pode ser expresso por ausência de apreciações positivas ou pela referência a aspetos positivos não socialmente valorizados. Um trabalho excelente de Rui Costa Lopes sobre preconceito, publicado na coleção de ensaios da Fundação FMS, ajudará a aprofundar mais as suas diferentes facetas. De que forma é que a narrativa idealizada do colonialismo português como harmonioso e multicultural ou “Portugal é um país de brandos costumes”, interage ou contribui para as atitudes e comportamentos atuais em relação aos imigrantes e migrantes, e de que forma é que esta perspetiva histórica pode ter impacto nos esforços para enfrentar e reduzir o preconceito? Estas perguntas exigiriam uma abordagem muito mais vasta do que aquela que é possível numa entrevista. São perguntas que tocam o coração da nossa história e da história europeia e envolvem processos sociopsicológicos muito complexos. Todos os países colonizadores desenvolveram formas de valorizar os respetivos processos de colonização. Essas narrativas visam preservar a autoestima coletiva e a identidade nacional e justificar no presente os horrores da colonização, sendo tão grande o empenho na justificação do mal que se esquece o que eventualmente poderá ter sido positivo. “Como nos restantes países, também entre nós a colonização foi objeto de um processo de idealização coletiva que ainda hoje se mantém” Por boas ou más razões, vários têm sido os governos de países colonizadores que recentemente vieram reconhecer os crimes associados à colonização, como é o caso do Reino Unido, da Alemanha, da Holanda ou da França. Neste último caso foi mesmo produzido um importante relatório com enquadramento institucional e proposta de medidas no que toca à colonização e à guerra da Argélia. Embora com expressão social e política débil, há já hoje evidências de vários tipos de novos olhares no que se refere à história da colonização. É importante sublinhá-lo. Como nos restantes países, também entre nós a colonização foi objeto de um

Rui Simões

Rui Simões Rui Simões “Tudo é político, mesmo a nossa ignorância. Procuro com o meu cinema estar próximo das pessoas e sobretudo das pessoas mais desfavorecidas, abordo os problemas sociais, a História, para melhor nos conhecermos” Bem-vindo a mais uma entrevista Impacto! Hoje, temos o imenso prazer de falar com Rui Simões, recentemente galardoado com o prestigiado Prémio Sophia de Carreira, o seu contributo foi oficialmente reconhecido, afirmando o seu estatuto de referência no cinema nacional. Conhecido pelas suas explorações criteriosas de temas sociais e políticos, os seus filmes reflectem as complexidades da sociedade contemporânea, desde as lutas das comunidades marginalizadas até à intrincada narrativa de acontecimentos históricos. Depois de estudar realização para cinema e televisão no Institut des Arts de Diffusion em Bruxelas, iniciou a sua carreira no vibrante contexto pós-revolucionário de Portugal, onde produziu documentários de referência como Deus, Pátria, Autoridade e Bom Povo Português. Com a sua recente incursão na ficção com Primeira Obra, um filme semi-autobiográfico que entrelaça a realidade e a ficção, produz uma nova exploração da narrativa e da expressão artística. A sua produtora, Real Ficção, tem sido fundamental na promoção do cinema independente, permitindo a exploração de questões sociais prementes através da lente da arte. Nesta entrevista, vamos aprofundar os temas que permeiam os seus filmes, desde a luta de classes até à responsabilidade dos cineastas em retratar verdades históricas. Junte-se a nós para explorarmos as ideias de Rui Simões sobre o poder transformador do cinema e as suas reflexões sobre uma carreira notável dedicada a contar histórias que ressoam com urgência e profundidade. “Tudo é político, mesmo a nossa ignorância. Procuro com o meu cinema estar próximo das pessoas e sobretudo das pessoas mais desfavorecidas, abordo os problemas sociais, a História, para melhor nos conhecermos” Antes de mais, parabéns por ter recebido o prestigiado Prémio Carreira Sophia! Esta distinção reconhece o seu notável contributo para o cinema português ao longo de cinco décadas. Como se sente com este reconhecimento nesta fase da sua carreira? Inspira-o a olhar para o seu trabalho com um sentimento de conclusão, ou alimenta novas ambições e direcções criativas? RS: Foi uma boa surpresa num ano muito especial para mim, aos 80 anos, 50 de carreira e 50 do 25 de Abril. Tudo junto num só ano é muita coisa boa e só posso estar feliz com isso. Quanto a conclusões não sou muito de conclusões, sou mais de deixar em aberto o futuro e continuar a procurar novos caminhos para esta aventura que é o cinema e a vida.  Os seus filmes, reflectem a urgência de documentar a mudança histórica. Como vê a intersecção entre o cinema e o ativismo político? O cinema é inerentemente político ou torna-se político consoante a intenção e o contexto do realizador? RS: Tudo é político, mesmo a nossa ignorância. Procuro com o meu cinema estar próximo das pessoas e sobretudo das pessoas mais desfavorecidas, abordo os problemas sociais, a História, para melhor nos conhecermos, e as Artes em geral, mas tenho consciência de que só com as novas tecnologias poderemos continuar esta luta por um mundo melhor. A transformação cultural e social é um tema recorrente nos seus filmes, desde a saúde mental à emigração e à pobreza. Na sua opinião, o cinema tem o poder de moldar ativamente os valores da sociedade, ou é mais um meio de reflexão que capta o zeitgeist de uma determinada época? RS: O Cinema tem o poder de esclarecer, iluminar, mas também de alimentar a reflexão. O Cinema é uma arte, a sétima, a que melhor corresponde à sociedade actual, por isso deve ser aproveitada para a transformação cultural e social, melhorando a vida das pessoas. Em obras como Bom Povo Português, examina criticamente as complexidades da democracia e da revolução. Como é que equilibra a necessidade de expressão artística com a responsabilidade de retratar acontecimentos históricos? Sente uma tensão entre ser cineasta e historiador, especialmente ao construir narrativas de identidade nacional? RS: Essa tensão existe, e é justamente no nosso trabalho de cineasta que vamos encontrar o equilíbrio entre nós e a História. Nunca sabemos se temos razão na construção da narrativa, mas ao sermos testemunho vivo de uma realidade histórica, estamos mais preparados para intervir com o Cinema na construção dessa narrativa, e só o tempo nos julgará. Para já vamo-nos dando bem com a nossa função. “O que me move ao fazer cinema é sempre o amor” Em Primeira Obra, uma personagem afirma, de forma profunda, que “o cinema conta sempre uma história de amor, sobretudo quando está a pensar na luta de classes”. Como interpreta esta frase no contexto do seu filme e que papel acredita que o amor, quer como força motriz, quer como fonte de conflito, desempenha em narrativas que abordam as disparidades sociais e económicas? RS: O que me move ao fazer cinema é sempre o amor. O amor desenvolve-se em cada momento do processo cinematográfico e sobretudo quando se trata de conflito como é o caso da luta de classes. Só o amor pode equilibrar os sentimentos humanos na frágil balança entre a vida e a morte. Estamos a viver um terrível momento histórico onde o amor desapareceu dos líderes políticos para se aproximar do ódio e fazer pender a balança para o lado da morte. O que estamos a assistir hoje é a uma corrida vertiginosa na auto estrada global da desinformação, para destruir o que de bom tem a espécie humana, as democracias são frágeis e as ditaduras impõem a lei do mais forte, mentindo, alimentando o ódio, falseando a verdade e dividindo as populações. Talvez o Cinema e as Artes em geral ainda possam contrabalançar esta situação, ou pelo menos atenuar os efeitos nefastos e só com o AMOR isso é possível. Olhando para trás, em 50 anos de cinema, como reflecte sobre o seu impacto no panorama mais vasto do cinema português e mundial? O que considera ser a realização mais significativa da sua carreira, e que questões ou histórias por

Joana Gama

Joana Gama Joana Gama “A vulnerabilidade traz intimidade e a comédia não é excepção” Bem-vindos à nossa Entrevista Impacto com Joana Gama, conhecida pela sua abordagem franca e multifacetada à comédia e ao storytelling. Desde as suas actuações em stand-up comedy e improvisação até ao seu trabalho na rádio e em podcasts, Joana Gama tem causado impacto com a sua mistura única de humor e introspeção. O seu trabalho estende-se por várias plataformas, incluindo espectáculos de stand-up como “Estou só a ver” e ‘Comedy Therapy’, podcasts envolventes como  “Banana-Papaia”, “Psychoterapia” e “Não sei ser” e autora de três livros, “Estou Toda Grávida”, “A Mãe é que Sabe” (em co-autoria com Joana Paixão Brás) e “Alguém Que Me Cale”. Na sua carreira, Joana não se tem esquivado a abordar temas complexos e sensíveis, que vão desde traumas pessoais e saúde mental a questões sociais e nuances culturais. A sua comédia faz frequentemente a ponte entre o humor e as verdades emocionais mais profundas, oferecendo entretenimento e reflexão. Nesta entrevista, vamos aprofundar algumas questões que envolvem a intersecção entre humor e consciência social. Vamos explorar a forma como Joana Gama percorre o delicado equilíbrio entre a liberdade criativa e a responsabilidade de lidar com as diversas sensibilidades do público. Discutiremos também o papel do humor como mecanismo de sobrevivência, a influência das perspectivas culturais na comédia e o impacto das experiências pessoais no sucesso de um comediante. “A forma como utilizamos determinadas ferramentas vai dependendo da nossa maturidade, do nosso caminho, das nossas necessidades” Sigmund Freud sugeriu que o humor pode ser uma forma de evitar sentimentos de medo e ansiedade, actuando como um mecanismo de defesa. Embora o humor seja frequentemente utilizado para lidar com o stress e as emoções negativas, estudos mostram que o impacto do humor depende do estilo utilizado, pode ser curativo ou potencialmente prejudicial. Como é que as ideias de Freud se relacionam com as suas próprias experiências de utilização do humor como mecanismo de defesa, tanto a nível pessoal como profissional? E como trabalha a linha ténue entre o humor que alivia o stress e o humor que pode inadvertidamente magoar-se a si ou aos outros? A forma como utilizamos determinadas ferramentas vai dependendo da nossa maturidade, do nosso caminho, das nossas necessidades. Tenho dividido a minha carreira nas fases de infância, adolescência e adulta, com o que isso acompanha logo à primeira vista. Na primeira fase, o mais evidente era a necessidade de validação imediata, ser vista – indiferentemente da forma, reconhecerem-me como ser vivo. Na segunda, o principal objectivo (em grande parte inconsciente) foi deixar sair a zanga, a mágoa e sentir-me empoderada, quebrando censuras sociais e auto-impostas. Declarei guerra, finalmente, ao meu passado e a tudo o que me fez sentir espartilhada e não merecedora. Agora, nesta terceira fase (espero que haja mais), sinto-me mais madura, mais intencional, mais livre também por essa intencionalidade e mais tridimensional. Consigo apresentar um produto menos acidental em palco e, ao mesmo tempo, muito mais transparente por haver uma nitidez maior da minha narrativa. O humor foi o espelho do meu crescimento interior e, ao mesmo tempo, uma ferramenta para sentir que tinha algum poder na minha própria vida depois de anos a sentir-me espezinhada e desrespeitada. Agora, é também a minha forma de apreciação por esse crescimento e sedimentação de uma narrativa menos doente e mais prolífera.  O meu humor sou eu. “A partilha da própria dor e trauma emocional é uma narrativa que nos liga a todos, acredito que em muitas formas de arte. Numa arte de performance em que o muro que nos distancia é tão fino, é natural que o comediante procure ser ouvido por aquilo que mais precisa de falar.” Existe frequentemente a percepção de que alguns dos comediantes mais bem-sucedidos recorrem à sua própria dor e trauma emocional para se ligarem ao público e o fazerem rir. Na sua experiência, acredita que existe uma relação direta entre as lutas pessoais de um comediante e a sua capacidade de alcançar o sucesso na comédia? Como pensa que esta ligação, se existir, influencia tanto a autenticidade do seu humor como o impacto que tem no seu público? A partilha da própria dor e trauma emocional é uma narrativa que nos liga a todos, acredito que em muitas formas de arte. Numa arte de performance em que o muro que nos distancia é tão fino, é natural que o comediante procure ser ouvido por aquilo que mais precisa de falar. Se for sobre o quanto odeia esperar em filas, assim será. Se estiver num processo de auto-análise, de sofrimento ou algo mais introspectivo, tal irá reflectir-se no seu trabalho, de forma mais evidente ou mais subtil (ficando, então, para os olhos dos mais atentos). Não acredito que haja comediantes que escolham falar desse tema para “viverem” dele sem terem uma natural inclinação para isso. É um assunto que emerge das suas vidas, é um assunto que requer muita verdade. Ainda para mais num espectáculo em que o indivíduo é o centro da acção. O público liga-se à verdade. Com persona ou não, o artista expõe-se sempre e tem de fazê-lo ainda para mais quando versa sobre este tema. O comediante que fale desses assuntos em palco está a pôr-se ao nível humano de quem o observa. Deixa de haver algo que o distancie de quem o quer ouvir, ver. Cria-se intimidade e não apenas admiração. Essa intimidade cria uma fidelização muito forte no público, um carinho de quem “nos viu crescer e cresceu connosco”. A vulnerabilidade traz intimidade e a comédia não é excepção. “Sinto a minha arte inexoravelmente ligada ao meu sentido de identidade e, por isso, não a trabalho de uma perspectiva tão filosoficamente consciente. Parte de um egocentrismo em negação. Sinto-me especial por não ser especial” O humor é percepcionado e valorizado de forma diferente entre culturas, por exemplo enquanto algumas, como as que seguem a filosofia confucionista na China, podem considerá-lo inapropriado, outras, como os taoistas ou os canadianos,

Maribel Mendes Sobreira

Maribel Mendes Sobreira Maribel Mendes Sobreira “O país, ao fazer parte da comunidade europeia e do contexto da globalização, vê-se forçado (e bem) a confrontar suas feridas históricas, muitas vezes ainda não resolvidas ou reconhecidas plenamente. Essas feridas incluem, entre outras, o colonialismo, o patriarcado e a heteronormatividade, que continuam a influenciar a maneira como as narrativas são construídas e apresentadas nos espaços culturais” Hoje temos a honra de conversar com Maribel Mendes Sobreira, uma pensadora e investigadora multifacetada que combina de forma única os campos da filosofia e da arquitetura no seu trabalho. Mestre em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), é atualmente doutoranda na mesma disciplina. O seu percurso académico tem sido pautado por uma profunda exploração do conceito de espaço e do seu impacto na formação da subjetividade, reflectindo uma abordagem crítica interseccional às questões contemporâneas. Paralelamente às suas actividades académicas, é uma prolífica ensaísta, investigadora e educadora, contribuindo para um vasto leque de discussões sobre cultura visual, teoria queer, feminismo e antirracismo. Maribel Mendes Sobreira é curadora activa e activista cultural, co-fundadora do ColectivoFACA, um projeto que funde a prática curatorial com a cidadania ativa. O seu envolvimento com grandes instituições culturais como o MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia) e o MAC/CCB (Museu de Arte Contemporânea/Centro Cultural de Belém) sublinha ainda mais o seu empenho em desafiar as narrativas normativas no mundo da arte. O seu trabalho caracteriza-se por um envolvimento crítico com a política da perceção, questionando a forma como as dinâmicas de poder moldam a nossa compreensão do espaço, da cultura e da identidade. Nesta entrevista, Maribel Mendes Sobreira aborda o papel da cultura visual na perpetuação ou desconstrução de preconceitos sociais, a intersecção da arquitetura e da filosofia na reimaginação de espaços urbanos e a importância da interseccionalidade nas práticas curatoriais e académicas. Apresenta ideias sobre os desafios da descolonização da arte, a sub-representação das mulheres na história da arte e a necessidade de os museus representarem melhor as perspectivas LGBTQI+ , feministas e anti-racistas. Através das suas respostas reflectidas, Maribel Mendes Sobreira sublinha a urgência de repensarmos as narrativas estabelecidas e de defender uma maior inclusão e justiça social na esfera cultural. “Se virmos bem será uma minoria que pretende garantir e perpetuar os seus privilégios, privando uma parte da população de ser em pleno, remetendo-a para o plano da “minoria” e limitando o acesso aos lugares de poder” A cultura visual desempenha um papel significativo na formação e no reflexo dos preconceitos sociais. A partir da sua vasta experiência na área curatorial, como vê a arte contemporânea a abordar e a desafiar preconceitos enraizados? Existem estratégias ou temas específicos que considere particularmente eficazes para confrontar o preconceito?  A cultura visual desempenha um papel fundamental. Acompanha-nos diariamente, sem nos apercebermos, e é a partir dela que construímos e desconstruímos os gazes formados pelo sistema cis-hetero-colonial, o chamado cânone ou normatização do olhar e, consequentemente, a nossa ação e o nosso modo de pensar. Quer queiramos quer não, o que chamamos de norma está assente em decisões políticas, num pensamento que querem como dominante e esse pensamento é detido por uma minoria (conservadora e financeira) que o toma para si e o transforma numa norma, num padrão, usando o disfarce da maioria e da universalidade. O conceito de maioria usado como argumento carrega em si uma falácia, que é sempre representacional: quem detém o poder dessa representação? Se virmos bem, é uma minoria que pretende garantir e perpetuar os seus privilégios, privando uma parte da população de ser em pleno, remetendo-a para o plano da “minoria” e limitando o acesso aos lugares de poder. Veja-se quem detém o poder em cargos de decisão na área cultural em Portugal, por exemplo. Só este pormenor vai ditar o que se vê, ouve e lê. O desafio passa por questionarmos os protocolos tácitos que a sociedade foi construindo, e uma parte do sector da arte contemporânea já o está a fazer a partir do seu lugar de fala, mas muitas vezes o sistema secundariza e tira voz. Estamos a lutar contra uma máquina sistémica que demoniza quem pensa a partir de um lugar que cria desconforto à tal maioria abstrata. “Ao olhar para as cidades através da lente da interseccionalidade, que pode ser entendida como um entrelaçamento de género, raça e classe, percebemos que as cidades operam como mecanismos de decisão política que, de forma invisível, escolhem e excluem” O seu trabalho questiona as perspectivas patriarcais e produtivistas dos espaços urbanos. De que forma pode a arquitetura contribuir para reimaginar as cidades numa perspetiva interseccional, promovendo a justiça espacial, social e ecológica? Pode dar exemplos de projectos ou abordagens que incorporem efetivamente estes princípios? Para responder à questão, é importante destacar que a minha formação é ambivalente, envolvendo tanto a arquitetura quanto a filosofia, sendo a partir desta última que construo o meu lugar de fala e o meu pensamento. O meu trabalho tem problematizado as dinâmicas das políticas de perceção, seja no espaço urbano ou na cultura visual, através da lente da sensibilidade, questionando a forma como o regime de poder molda tanto o acesso ao espaço quanto a maneira como tomamos consciência de nós mesmos e dos outros. Ao olhar para as cidades através da lente da interseccionalidade, que pode ser entendida como um entrelaçamento de género, raça e classe, percebemos que as cidades operam como mecanismos de decisão política que, de forma invisível, escolhem e excluem. Este processo é semelhante à “mão invisível” de Adam Smith, que supostamente regula o mercado de forma benéfica, mas na verdade perpetua as desigualdades. A pandemia evidenciou que é no espaço público, e não no privado, que se constroem tanto a alteridade quanto a identidade individual. Não se trata apenas de um salto do “eu” para o “nós”, mas de uma tomada de consciência de que a existência do “eu” só é possível através do encontro com o outro. É crucial problematizar o papel do espaço público na constituição das

Inês Simões

Inês Simões Inês Simôes “Pelo impacto que têm na sociedade, começando pelos vários públicos que fazem parte do seu ecossistema, as Organizações têm a responsabilidade de capacitar as suas Pessoas para serem agentes de mudanças positivas, preparadas para enfrentar os desafios globais com criatividade, responsabilidade e um forte sentido de propósito coletivo” Na entrevista de hoje, temos a honra de falar com Inês Simões, Directora de Comunicação Corporativa, Marca e Cultura Organizacional do Grupo Ageas Portugal. Inês Simões desempenha um papel fundamental na articulação e comunicação do compromisso firme do Grupo com a responsabilidade corporativa e na promoção de um ethos baseado numa conduta ética. Licenciada em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro, conta com mais de duas décadas de experiência na elaboração de iniciativas de comunicação estratégica em empresas multinacionais. Inês Simões é também, atualmente, Presidente da Associação Portuguesa de Comunicação de Empresas (APCE). Nesta conversa, exploramos a dedicação do Grupo Ageas Portugal à promoção do diálogo social, à defesa de uma liderança ética e humanizada que dá prioridade à Diversidade e à Inclusão, e ao conjunto de iniciativas que visam capacitar e nutrir as suas Pessoas e demais stakeholders. Estes valores sublinham os princípios fundamentais do Grupo Ageas Portugal e a sua dedicação ao crescimento sustentável. O Festival Impacto tem o orgulho de contar com o Grupo Ageas Portugal entre os seus Patrocinadores e Parceiros em várias iniciativas do festival. O envolvimento do Grupo no Festival destaca a sua postura proactiva na condução de mudanças significativas e na promoção do diálogo sobre questões sociais cruciais. “Pelo impacto que têm na sociedade, começando pelos vários públicos que fazem parte do seu ecossistema, as Organizações têm a responsabilidade de capacitar as suas Pessoas para serem agentes de mudanças positivas, preparadas para enfrentar os desafios globais com criatividade, responsabilidade e um forte sentido de propósito coletivo” A sua experiência internacional na coordenação de projectos no Mediterrâneo e na América Latina deve ter-lhe proporcionado novas perspectivas e desafios únicos. Como vê esta diversidade cultural a contribuir para a promoção de uma abordagem de liderança mais humana, empática e, consequentemente, uma comunicação mais inclusiva nas organizações multinacionais? Ao longo da minha carreira profissional, tenho tido o privilégio de trabalhar e liderar equipas muito diversificadas, nomeadamente do ponto de vista cultural e geográfico. Estes contextos onde reina a diversidade são, sem dúvida, muito enriquecedores para nós enquanto Pessoas e enquanto profissionais, ao nível de perspetivas e experiências, conduzindo naturalmente a uma abordagem de liderança mais humana e empática. Leva-nos também a adaptar estratégias e estilos de comunicação e de interação onde cada Pessoa é ouvida e respeitada, e consequentemente, a ter a flexibilidade necessária para ajustar uma iniciativa ou ação de comunicação a cada cultura local de forma a garantir uma comunicação inclusiva e com a qual os públicos-alvo se identificam, mesmo que a ideia original parta de uma equipa central. “Estes contextos onde reina a diversidade são, sem dúvida, muito enriquecedores para nós enquanto Pessoas e enquanto profissionais, ao nível de perspetivas e experiências, conduzindo naturalmente a uma abordagem de liderança mais humana e empática” Como podem as organizações transformar-se efetivamente através da comunicação para cultivar um diálogo mais responsável e inclusivo, tanto interna como externamente? Especificamente, que estratégias ou práticas acredita serem cruciais para alcançar este objetivo? Em primeiro lugar, é necessário que as Organizações e os/as decisores/as definam intenções e objetivos claros, assim como tenham a motivação de desenvolver um ambiente de trabalho mais inclusivo e responsável. A partir daí, deve começar-se pelo básico, ou seja, educar a liderança e as equipas sobre o que pode ser um ambiente mais inclusivo tendo em conta o contexto e as oportunidades na respetiva Organização. Começar por aqui permite definir e alinhar um caminho, ter um foco e criar os pilares de base para alertar consciências sobre, por exemplo, preconceitos inconscientes, e despertar para a importância de uma linguagem inclusiva. Existem, no entanto, outras práticas fundamentais:– escutar verdadeiramente e criar espaços de partilha e de diálogo seguros que permitam uma comunicação bidirecional, sejam fóruns, comunidades ou encontros regulares dedicados a debater estes temas, assim como avaliar e recolher feedback continuamente sobre as estratégias adotadas para se poder evoluir; – utilizar ferramentas de comunicação que facilitem a inclusão, e a tecnologia é um facilitador neste sentido. Alguns exemplos: plataformas de videoconferência com recursos de acessibilidade, softwares de tradução automática ou canais de comunicação adaptados para diferentes necessidades culturais e linguísticas; – desenvolver e implementar políticas claras de comunicação que promovam a diversidade e a inclusão, tanto interna quanto externamente, nomeadamente normas e orientações sobre a linguagem a ser usada nos vários canais de comunicação, garantindo uma coerência transversal; – garantir um alinhamento comum em toda a liderança, na atitude e na adoção de práticas e comportamentos de comunicação inclusiva e responsável, servindo de modelo para a restante Organização. A liderança deve ser proativa em abordar e resolver questões de comunicação que possam surgir, muitas vezes provenientes das próprias equipas. No Grupo Ageas Portugal estamos a desbravar este caminho, através da definição de estratégias e compromissos. Estamos cientes que é uma jornada longa, tem trazido inúmeros desafios e aprendizagens, pois é um caminho humano e, assim sendo, não é, nem será, linear ou perfeito. “é necessário que as Organizações e os/as decisores/as definam intenções e objetivos claros, assim como tenham a motivação de desenvolver um ambiente de trabalho mais inclusivo e responsável” No contexto da promoção de um mundo mais centrado na humanização (human-centered), diversificado e inclusivo, até que ponto novas competências são essenciais para desafiar as normas existentes e evitar a perpetuação de preconceitos? Há conceitos ou práticas específicas que os indivíduos e as organizações precisam de “desaprender” para promoverem efetivamente um ambiente de trabalho mais saudável, respeitoso, inclusivo e sustentável? Cada Pessoa é única e fruto de valores, princípios e crenças que foi adquirindo ao longo da vida. E uma Organização é uma soma desta diversidade de contextos e experiências, pelo que naturalmente estes são temas raramente consensuais e que necessitam de

Isabel Nogueira

Isabel Nogueira Isabel Nogueira “é a arte que, muitas vezes, consegue ultrapassar e até terminar com determinados preconceitos. A arte tem uma característica específica que é a de, por um lado, ser fruto do seu tempo e existir em relação com ele; por outro, e pela sua intrínseca e ontológica necessidade de inovação, contribuir para o progresso, denúncia e até superação relativamente ao seu presente” Na entrevista de hoje, aprofundamos a complexa intersecção entre arte, preconceito e normas sociais, guiados pelo profundo conhecimento de Isabel Nogueira sobre história e teoria da arte. Doutorada em Belas-Artes, com especialização em Ciências da Arte, pela Universidade de Lisboa, e pós-doutorada em História e Teoria da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem pela (Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne), as contribuições académicas de Isabel Nogueira abrangem o meio académico, a crítica e a investigação. Professora da Sociedade Nacional de Belas-Artes e investigadora principal do CIEBA/Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. A sua presença em organizações de renome, como a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA) e o Institut Æsthetica: Art et Philosophie/Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne, reforçam ainda mais a sua reputação neste domínio. Isabel Nogueira é ainda editora da revista Arte e Cultura Visual (CIEBA), autora correspondente da revista Recherches en Esthétique e crítica na revista Contemporânea. Nesta entrevista exclusiva, conversamos sobre a influência do preconceito na história da arte, no cinema e nas normas sociais. Desde o desvendar do impacto histórico do preconceito nos movimentos artísticos até ao significado contemporâneo de desafiar padrões de beleza, cada pergunta tem como objetivo, esclarecer o potencial transformador da arte na reformulação das nossas percepções e no confronto com os nossos preconceitos. Bem-vindos! “é nesta luta, quase corpo a corpo, precisamente contra o preconceito e os cânones artísticos do passado, que a arte moderna – por isso se chama precisamente assim – se insurge de modo inédito e sem retorno” Considerando a sua vasta experiência e formação em História e Teoria da Arte Contemporânea, como vê o preconceito a influenciar a formação de normas e valores sociais? Pode dar-nos exemplos históricos em que o preconceito alterou significativamente a trajetória de movimentos artísticos ou o reconhecimento de artistas? Creio que a questão poderá ser equacionada ao contrário: é a arte que, muitas vezes, consegue ultrapassar e até terminar com determinados preconceitos. A arte tem uma característica específica que é a de, por um lado, ser fruto do seu tempo e existir em relação com ele; por outro, e pela sua intrínseca e ontológica necessidade de inovação, contribuir para o progresso, denúncia e até superação relativamente ao seu presente. Na verdade, e a título de exemplo, foi no fervilhante século XIX e no decorrer do modernismo que foi possível, pela primeira vez na História da Arte, o emergir de uma cultura independente da cultura oficial. A arte moderna começa na sequência da ruptura de códigos visuais que a fotografia espoletou – a chamada “crise da representação” – e da consequente necessidade de abstracção – relativamente ao objecto representado – como única possibilidade de inovação, ou seja, de ir contra uma arte convencional, ligada genericamente a uma representatividade realista ou naturalista que durou séculos. O primeiro movimento de vanguarda, o fauvismo, que também eclodiu em França, foi de difícil aceitação, a cujos artistas a crítica conservadora chamada de “invertebrados”. Mas é nesta luta, quase corpo a corpo, precisamente contra o preconceito e os cânones artísticos do passado, que a arte moderna – por isso se chama precisamente assim – se insurge de modo inédito e sem retorno.  Como é que o preconceito influenciou historicamente a construção de narrativas e cânones na história da arte? Que metodologias propõe para descobrir e integrar as diversas contribuições artísticas que foram marginalizadas ou omitidas do registo histórico? A História da Arte, tal como a História, é uma narrativa produzida em determinado momento e contexto, portanto, com as características desse mesmo contexto. Ambas partem de factos, ou seja, de acontecimentos – uma obra de arte é um acontecimento – que existem em determinado tempo e espaço. Contudo, os factos e as vozes que enriquecem e complexificam essa narrativa deverão ser permanentemente acrescentados, contemplados, revistos, complexificados. Esta é uma questão fundamental, por exemplo, no que se refere ao pós-colonialismo e à fundamental reescrita – diferente de apagar – da História. “Sem desejo de ver, ou disponibilidade activa para ver, não há relação com a obra de arte ou com a imagem artística” No seu ensaio “A imagem no enquadramento do desejo: transitividade em pintura, fotografia e cinema” (Book Builders, 2016), aprofunda a natureza multifacetada do desejo na arte visual, considerando as suas dimensões emotivas e comunicativas a par com o contexto cultural e histórico. Na sua opinião, como é que o preconceito poderá influenciar a forma como o desejo é representado e percepcionado nestes meios e qual o impacto que isso tem na nossa sociedade? Sem desejo de ver, ou disponibilidade activa para ver, não há relação com a obra de arte ou com a imagem artística. Este livro debruça-se sobre a imagem na pintura, na fotografia e no cinema e nas suas relações, que entendo também como transitivas, ou seja, precisamente como desejantes de sair da sua condição original de suporte e de linguagem. Por outras palavras, por um lado, pensa-se a relação do espectador com a obra precisamente a partir do desejo de ver; por outro, na relação transitiva entre estes três tipos de imagem, que assenta num desejo de ser, por algum motivo, a outra. Por exemplo, a pintura deseja o dinamismo/automatismo da fotografia; a fotografia deseja o enquadramento classicista e rigoroso da pintura; ou ambas desejam o fora de campo cinematográfico. O desejo de ver o Outro pode, precisamente e também, abolir preconceitos. “O desejo de ver o Outro pode, precisamente e também, abolir preconceitos” Em “A encantatória visualidade: textos sobre cinema” (Edições Húmus, 2023), faz uma exploração e reflexão sobre as intersecções do cinema com a história da arte, a política e os movimentos sociais. Neste contexto, como vê a capacidade do cinema para espelhar

Alice Joana Gonçalves

Alice Joana Gonçalves Alice Joana Gonçalves “a arte é o meio mais amoroso para uma reflexão coletiva. Como o cravo nas espingardas dos soldados do 25 de Abril, a arte é a Celeste, a florista que distribuiu os cravos” Nesta entrevista conversamos com Alice Joana Gonçalves, artista visual, performer que desenvolve o seu trabalho cruzando disciplinas como arte, política, justiça social. Alice será também a nossa próxima curadora da conversa warm up que tem como tema “Manifestar a beleza: Desafiar ideais, abraçar a singularidade”. Com uma carreira com diversas distinções que atestam a sua abordagem inovadora, o currículo de Alice Joana Gonçalves é testemunho do seu empenho inabalável em ultrapassar os limites da expressão artística. Desde o seu trabalho de estreia, “Apocalipse”, que lhe valeu o prémio Jovens Criadores; dois depois volta a ganhar o Prémio Jovens Criadores e os Prémios Novos até às suas colaborações com personalidades como Julião Sarmento e Daddy G (Massive Attack), o percurso de Alice é marcado pela coragem, criatividade e uma determinação feroz em desafiar o status quo. Junte-se a nós para descobrir as complexidades da beleza, a igualdade de género e o poder da arte performativa na formação da nossa consciência colectiva. Desde a sua exploração do corpo humano como ferramenta de expressão artística e de crítica política até ao seu compromisso inabalável de ressignificar o corpo da mulher no contexto da sociedade civil. Bem-vindos! Na sua prática artística apresenta uma abordagem à arte performativa política, utilizando o seu corpo como o veículo de expressão artística e de crítica política. Poderia aprofundar a forma como explora a intersecção entre o corpo humano, a arte e a política no seu trabalho, e o que a motiva?   A utilização do corpo na minha expressão artística é uma inevitabilidade, porque não tenho as ferramentas de alguém que estudou Belas-Artes. Por este motivo, a minha ferramenta de trabalho restringe-se ao meu corpo. Tendo vindo da área do direito e com mestrado em direito penal, que é a disciplina que que mais abala a nossa concepção sobre o indivíduo e a responsabilidade coletiva que todos nós, temos por viver em comunidade, a questão da justiça social sempre foi uma preocupação para mim. A arte é o meio mais eficaz para transformar a sociedade e fazê-la evoluir relativamente a questões mais sensíveis, como a questão da lei do aborto, como a eutanásia, como a responsabilização dos políticos na nossa relação com a nossa pátria. O ambiente artístico é um ambiente sem prejuízos, descontraído, multidiverso em que todas as pessoas sentem que podem ser quem são e exatamente por isso, a par da educação, a arte é o meio mais amoroso para uma reflexão coletiva. Como o cravo nas espingardas dos soldados do 25 de Abril, a arte é a Celeste, a florista que distribuiu os cravos. “A arte é o meio mais eficaz para transformar a sociedade e fazê-la evoluir relativamente a questões mais sensíveis, como a questão da lei do aborto, como a eutanásia, assim como a responsabilização dos políticos na nossa relação com a nossa pátria” Mencionou, nas suas publicações, a re-significação do corpo das mulheres no contexto da crítica política e da sociedade civil. Poderia falar sobre alguns dos temas ou questões específicas que aborda nos seus espectáculos e de que forma contribuem para reformular as percepções do corpo das mulheres? O meu trabalho performático passou, até à data, por 3 etapas, a primeira durou cerca de uma década (dos 26 aos 36 anos) e todas as minhas performances feitas neste período são visualmente abstratas, viviam mais da tensão do corpo da mulher /performer criada com o público. A ideia era construir performances sem picos, lineares em termos de tensão e o desafio era como poderia manter essa tensão durante toda a performance, sem recorrer a picos de êxtase para manter o público comigo. No fundo pretendia que o espectador entrasse numa espécie de meditação ativa e abstracta, mas na qual o meu corpo (de mulher) era um objecto ao serviço de uma imagem. A reflexão, de uma forma velada, era a questão da objetificação, a submissão e a dependência emocional em relação a uma sociedade machista. Aos 35 anos senti vontade de parar com este tipo de performances (a maioria solo performances) e “sair para o mundo”, “manifestar-me”. Comecei uma série de projetos maiores, com equipas grandes e com mensagens para o mundo, sempre no feminino – o prazer latu sensu como motor de transformação social. Assim como, projetos eminentemente de carácter social/político como o “Não Sou Marcela Mas Também Faço Política” e o “Prazer, Política e Arte”.Agora com 38 anos, estou a voltar às performances a solo, apresentando o corpo muito politizado, imediato, urgente e maduro … “Os meus vídeos estão sempre a ser censurados “deitados abaixo” pela META e tenho sempre que enviar recurso para voltarem a publicar o vídeo (em nenhum deles estou nua, ou a revelar partes íntimas), há uma assunção que, qualquer mulher que publique um vídeo de cueca e soutien, está a publicar conteúdo de nudez e atos sexuais explícitos” Como vê o seu trabalho a contribuir para conversas mais amplas sobre a igualdade de género e os direitos das mulheres, em particular ao desafiar o olhar patriarcal que frequentemente objectifica e restringe os corpos das mulheres? Se observarmos as redes sociais, constatamos por exemplo, que as mulheres não podem mostrar os mamilos porque serão censuradas.Os meus vídeos estão sempre a ser censurados “deitados abaixo” pela META e tenho sempre que enviar recurso para voltarem a publicar o vídeo (em nenhum deles estou nua, ou a revelar partes íntimas), há uma assunção que, qualquer mulher que publique um vídeo de cueca e soutien, está a publicar conteúdo de nudez e atos sexuais explícitos (esta é a razão que me é dada em notificação pela META sempre que um vídeo meu é censurado). Obriga-me, por este motivo, a pedir recurso, reconhecem sempre o erro e voltam a colocar o vídeo online.Este olhar da META é a metáfora do